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sábado, 22 de março de 2014

AS CHAVES DO REINO


Jesus disse a Pedro que entregaria a ele as chaves do reino (Mt 16:19). Com elas ele abriria ou fecharia as portas do reino de Deus.
Fiquei pensando como poderia ser isso. Como poderia uma pessoa abrir ou fechar as portas do reino de Deus a outras pessoas? Que chaves seriam essas?
Como tenho pensamento imagético, recorro frequentemente a metáforas. Para entender o ensinamento de Jesus sobre as chaves pensei em uma pessoa adulta e um cachorro no interior de um quintal cercado, murado; o quintal da própria residência de ambos. Em tal circunstância uma diferença entre a pessoa e o cachorro, diferença que se recusa esconder mesmo dos olhares mais distraídos, é que a pessoa sabe como abrir o portão e o cachorro, não. Isto é, a pessoa tem a chave e o cachorro não tem. A pessoa fica "presa" até à hora que quiser e o cachorro, até à hora em que a pessoa quiser. De alguma forma alguém "deu" as chaves da casa à pessoa e não as "deu" ao cachorro. A pessoa com a sua capacidade de raciocinar e liberdade de escolha detém as chaves da casa.
A chave é o conhecimento, é a consciência transcendental, é a capacidade de decidir e a possibilidade de escolher, é a capacidade de agir conscientemente.
Ao dar as chaves do reino aos Seus discípulos Jesus não entregou nada físico, nada manipulável porque  queria que eles entendessem que elas eram as Suas Palavras, palavras de conhecimento sobre o viver cristão, sobre o relacionamento com Deus e o próximo. Em Suas palavras repletas de exemplos e de orientações sobre graça, perdão e serviço, Ele mostrou o caráter de Deus; revelou o Seu plano e a expectativa divina para a existência humana. Essa é a chave.
Ele não deu a ninguém direito de decidir pelo outro, de abrir ou fechar portas para o outro, exceto para os animais e as crianças. O conhecimento traz ao homem as opções de escolha e o poder de decidir. O conhecimento é a chave que o homem precisa para abrir ou fechar a porta de céu. É ele que possibilita ao homem decidir o que deseja para o seu futuro, como deseja ser tratado por Deus e pelos semelhantes. É o conhecimento que possibilita escolher.
As chaves do reino são os ensinamentos de Cristo expurgados de dogmas religiosos, desvinculados de instituições que se consideram detentoras da verdade.
As chaves são o conhecimento e a liberdade.
Antonio Sales
Nova Andradina, 22 de março de 2014.


sábado, 8 de março de 2014

CONTEMPLAÇÃO



“É pela contemplação que seremos transformados”. Esse foi o discurso recentemente ouvido em uma igreja em uma mensagem para as mulheres, no dia dedicado internacionalmente a elas.
O apelo era para que as mulheres contemplassem a Jesus em meditação e oração para serem transformadas em boas esposas, mães, missionárias, etc.
Fiquei pensativo. Era isso que as mulheres mereciam ouvir? Será verdade que a contemplação nos transforma? Não seria a ação o agente transformador?
Isso, de contemplação transformadora, se parece mais com as poucas informações que tenho da vida dos monges budistas. Levam uma vida trancafiada em um mosteiro, vivendo na mendicância e com pouca ação. Não creio na eficácia desse estilo de vida porque não tem função social e não sei se de fato eleva espiritualmente. Não creio numa vida espiritual desvinculada da vida social porque não creio num homem 100% espiritual.
No meu entender a contemplação até pode trazer algum impulso, motivar um desejo de mudança, mas é a ação que transforma. Mesmo assim a contemplação  que provoca mudanças não é qualquer uma porque depende do "ângulo" em que o "objeto" está sendo contemplado. Depende da perspectiva de quem contempla.
Quem tem uma visão socialista da vida ao contemplar a Jesus vê o Seu exemplo de dedicação ao próximo; que tem uma visão espiritualista demora-se nos Seus momentos de oração a sós. Quem tem uma visão dogmática da religião vê em Jesus um rebelde sem causa que causou ruptura no judaísmo, uma religião consolidada, e aquele que vê a igreja como um espaço para crescimento social contempla o Jesus que abençoava as crianças e curava os enfermos.
É por tudo isso, por depender da orientação ideológica de cada um, que tenho a impressão de que a contemplação é insuficiente para moldar vidas. Ela é moldada e não  modeladora. Ela é produto e não produtora.
Embora não seja a minha intenção negar o valor da contemplação, gostaria de reservar   a ela um espaço bem menor do que aquele que normalmente lhe é reservado. Não creio no seu poder transformador, embora creia que possa ter poder de produzir alguma inspiração, incentivar uma tomada de decisão. Para mim o que transforma é a ação e é por isso que quando se trata de homenagear as mulheres prefiro citar Joana D'Arc, Madre Tereza de Calcutá, Margareth Thatcher ou Malala, a menina que desafiou os talibãs.
O que faz uma mulher ser boa esposa, mãe, profissional, intelectual, é a sua decisão seguida de uma forte ação.
Por vezes precisamos contemplar para nos comparar, em termos de realização ou de potencialidades. Precisamos olhar para alguém para ter inspiração, para sentir que não estamos sozinhos, mas a transformação somente ocorrerá se agirmos.
Penso que uma homenagem às mulheres passa pela valorização da ação delas, pelo reconhecimento da contribuição delas e pelo relato de mulheres que marcaram época em um mundo masculinizado.
Parabéns às mulheres, nesse seu dia, pelo que elas fazem e pelo que conseguem ser neste contexto nem sempre favorável ao desempenho das suas múltiplas funções.

Campo Grande, 08/03/2014 -Dia Internacional da Mulher.
Antonio Sales


sábado, 1 de março de 2014

À SOMBRA DO JUÍZO



Encontramos em várias passagens bíblicas o anúncio de que haverá um juízo final, um julgamento seguido de uma sentença (Mt 12:41; Ap 19:2; 1Pe 4:17; Ap 20:11-15; Mt 25:33). Mesmo deixando de lado a perspectiva bíblica parece não haver dúvida de que em qualquer sociedade há sempre um tribunal e que vivemos protegidos ou acuados por ele. Estou pensando  em juízo do ponto de vista de um réu, daquele que  tem contas a prestar.
Diante dessa expectativa podemos dizer que vivemos à sombra do juízo. No entanto, essa sombra pode ser vista sob  várias perspectivas. Uma delas é a da moral.
Nessa perspectiva temos três classes de pessoas: as heterônomas, as autônomas e as "anômalas". O heterônomo é aquele sujeito que age coagido.  Pode viver honestamente ou cumprindo os seus deveres por temer um encontro com o juiz, um encontro no tribunal. O heterônomo vive assim. Age de forma correta por temor, por coação. Cumpre os seus deveres por temor das consequências, por temer a sentença que paira sobre a sua cabeça. Para o heterônomo o juízo projeta um assombre sinistra, ele vive no lado escuro da sombra.
O sujeito moralmente autônomo não teme o juízo. Ele age motivado por uma ordem moral interior. Para esse sujeito o juízo projeta uma sombra clara, iluminada, protetora. Vive como se  não houvesse contas a prestar e, pela mesma  razão, como se o juízo não existisse. Ele é o seu juiz e o encontro no tribunal representa um momento de glória, uma oportunidade de vindicação (defender a sua pureza), a oportunidade de receber o galardão (ser honrado, receber a glória que lhe é devida).
Por outro lado, o sujeito moralmente "anômalo", que vive em estado anomia, leva uma vida de indiferença, simplesmente ignorando que terá contas a prestar ou que deve satisfação à sociedade. Vive como se não existissem lei, sociedade, ordem; como se não existisse o amanhã. Vive para si e para o aqui e o agora. Uns ignoram e outros  desdenham do juízo.
Outra perspectiva é a da fuga do enfrentamento. Deixa-se de tomar posição contra atos de injustiça sob o pretexto de que no final o tribunal (divino ou humano) fará justiça. É uma forma cômoda de viver. O sujeito não reclama os seus direitos, não defende os fracos, não se opõe contras as injustiças supondo que o tribunal tenha olhos, que o juiz seja onipresente e que se posicionará espontaneamente a seu favor.
Mesmo em se tratando de juízo divino onde o Juiz, supostamente,  tudo vê e tudo observa atentamente, não é correto esperar sem reclamar porque a justiça não socorre os que dormem, não pode defender quem não manifestou o desejo de ser defendido salvo se o sujeito for considerado incapaz.
A história traz exemplos dessa postura dos tribunais (divino ou humanos) quando ditadores tiranos permanecem no poder até que o povo se manifesta e reclama por justiça. Esse reclamar normalmente é ativo, é manifestado pelas ações do povo que sai às ruas, que se expõe e que exige renúncia do tirano ou a sua condenação.
Até mesmo Deus tem agido assim permitindo que injustiças sejam cometidas por décadas contra um povo que ora e clama por Ele, mas não age. O clamor passivo tem produzido pouco ou nenhum resultado e mesmo que no final, no ajuste de contas universal, o tirano seja condenado não haverá como repor os prejuízos causados ou recompor as vidas destruídas e famílias desfeitas.
Essa perspectiva de espera passiva é a perspectiva da fuga da responsabilidade pessoal.
Tenho observado que muitos cristãos vivem à sombra do juízo divino nessa perspectiva de fuga. São cristãos lamurientos, moralmente fracos e espiritualmente ignorantes. São heterônomos morais e contraditórios porque  ao mesmo tempo em que agem corretamente por medo do juízo, vivendo na sombra sinistra, projetam nela as suas esperanças. Uma situação claramente paradoxal.
 Muitas igrejas têm conseguido manter os seus fiéis nessa perspectiva por anos, às vezes, por toda uma vida.
Antonio Sales
Campo Grande, 01 de março de 2014.