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sábado, 24 de setembro de 2011

O OLHAR DE JESUS



Era o mês de janeiro do ano de 2002. Eu estava na cidade de Bodoquena, MS. Estava muito cansado, exausto. Fatigado pelos afazeres e problemas da vida e ansioso por descanso. Queria passar uns dias sem pensar em algo específico, deixar os pensamentos caírem no vazio. Viver por, alguns dias, o nada, o vazio da existência.
Era uma quarta-feira e o vazio fazia-me sentir a necessidade de ouvir uma palavra consoladora. Fui à igreja. Sentei nos últimos bancos. Não queria ser visto. Queria ouvir algo que me animasse,  que me trouxesse de volta à existência. Nessa noite uma irmã solou um hino conhecido, mas que fazia tempo não o ouvia. O meu estado de espírito estava predisposto a encontrar conforto pessoal nas palavras desse hino. Quando ela cantou “seu maravilhoso olhar” proferiu as palavras que eu precisava ouvir.
Qual a maravilha do olhar de Cristo?  Perguntava eu. Se Ele me olhasse hoje qual seria,  para mim, o significado desse seu olhar?  Eu estava de férias e havia saído de Campo Grande para descansar. Eu não queria escrever, pregar ou ensinar ninguém naquela semana. Também não queria dormir. Estava em busca de algo que não fosse rotineiro. Mas ali estava um hino conhecido com suas palavras familiares, embora  há muito tempo não as ouvia,  fazendo eco no meu coração. No restante daquela semana, enquanto andava pelos campos e balneários da localidade, as palavras do hino ecoavam em meus ouvidos e a pergunta persistia: qual a maravilha do olhar de Cristo?
Pensava nas imagens que temos de Cristo. Sempre sério, olhar parado, penetrante e perguntava: é a esse olhar que o autor do hino se referia quando escreveu essa poesia?
Numa tentativa de compreender a expressão “maravilhoso olhar” comecei por pensar nos olhares humanos.
Os olhos são a vitrine do corpo dizem os iridólogos. Não estou convencido disso, mas estou convencido de que os olhos são a vitrine  da alma. O olhar, normalmente,  revela o que vai no interior: o medo, o ódio, o amor, a indiferença e até a  malícia. Ele revela os nossos sentimentos e, por vezes, trai os nossos pensamentos. Quantas vezes o olhar revela sentimentos que não pensamos em revelar.
Pensemos por um pouco nos diversos olhares humanos.
Há o olhar cintilante dos enamorados. Ele revela expectativa, sonhos, coração ardente, entusiasmo. Revela o fruto da confiança nos sentimentos do outro, na sua sinceridade.
Também tem o olhar cintilante os enamorados pela vida.  Seja do  profissional que aprecia o que faz, que tem convicção de estar cumprindo um importante  papel social, seja do pai ou da mãe  que pode sentir orgulho dos seus filhos. Pode ainda ser o olhar do jovem que acaba de ingressar na faculdade, no curso dos seus sonhos. Todos têm um brilho no olhar. É um olhar contagiante, animador.
Há o olhar faiscante de ódio e rancor. É o olhar dos feridos, dos que planejam vingança. Dos que sonham com a desforra, com a aniquilação do outro.
Há o olhar sem brilho do desiludido. Um olhar que expressa desânimo e revela a desilusão que vai na alma. É o olhar do decepcionado com o próximo e com a vida. É olhar desesperançado do desempregado, do pai que tem um filho dominado pelas drogas, daqueles que investiram “tudo” e parece não estar tendo retorno. O olhar daqueles que perderam fé e caíram no vazio. Era o meu olhar naqueles dias.
Há o olhar desconfiado. Ele revela a desconfiança no outro ou na sua própria capacidade de convencimento.
Há o olhar de reprovação expresso nos olhos dos pais quando discordam do comportamento dos filhos. É o que chamávamos, quando crianças, de “rabo de olho”.
Há o olhar vago, dispersivo, de quem não entendeu ou não está interessado no assunto. Era o olhar de muitos alunos nas minhas aulas de matemática.
Há o olhar de descrença no outro. Aquele olhar que me diz que você não aposta em mim, não acredita no que eu proponho e nem na minha capacidade ou boas intenções. Não acredita na minha história da vida, na dor que eu sinto, na disposição que tenho. Era ao olhar que me fustigava naqueles dias.
Há também o olhar perscrutador do cientista. Daquele que busca desvendar algum mistério relacionado com a sua área de conhecimento. Mistério que existe em cada objeto que ele vê. O cientista olha o mundo diferente.
Há ainda o olhar malicioso de quem está com objetivo de derrotar o outro. Em busca de um pretexto, de uma oportunidade para dar o golpe fatal. Não é um olhar de ódio, mas é um olhar de maldade, de hipocrisia.
Cada olhar reflete um estado de espírito ou uma condição do caráter. Se for passageiro, momentâneo reflete o estado de espírito ou humor da pessoa. Se for constante reflete o caráter.
Esses são os olhares humanos e há outros que poderiam ser indicados pelo leitor, mas vamos parar por aqui por não ser nosso objetivo analisar esses olhares. Este foi apenas um prelúdio para preparar o nosso espírito para compreensão do olhar de Jesus.
Por que o olhar de Jesus é maravilhoso e por que provocou lágrimas em Pedro?
O olhar de Cristo é capaz de desnudar a alma humana e Ele sempre surpreendeu os Seus seguidores com o Seu olhar. O Seu olhar  descobria necessidades secretas, problemas ocultos. Mas era um olhar de compaixão. Ele não usava dessa sua capacidade de desvendar os segredos para expor as pessoas ao ridículo. Não tentava desmascará-las embora tudo soubesse sobre elas.
Referindo-Se a Judas ele disse: “um de vós é o diabo” (Jo 6:70). Mas foi tão discreto que cada um dos outros se perguntava: será de mim que Ele esta falando?
Dissemos que o olhar de Cristo desvendava necessidades secretas e se compadecia dos sofredores. Vejamos alguns exemplos.
Ao olhar para a mulher samaritana (João 4), viu o horário impróprio de buscar água,  percebeu o seu andar desconfiado e o olhar sorrateiro. Descobriu imediatamente toda a desventura da sua alma. Desvendou toda a mazela espiritual da sua vida. Mas (que olhar maravilhoso!),  não a condenou. Deu-lhe esperança, um significado para vida.
Ao olhar para a mulher pecadora (João 8), ameaçada de morte, percebeu toda a angústia que invadia a sua alma e viu a vítima que se escondia sob seus longos cabelos. Viu a dor que se estampava no seu rosto cansado. Ao Seu olhar não havia naquele rosto sinais de maldade ou de safadeza. Havia sim, uma profunda dor e desilusão para com os seres humanos, especialmente para com os homens que a exploraram e agora a condenavam. Que “maravilhoso olhar”!
Ao olhar para Mateus, sentado na alfândega, cobrando impostos (Mat. 9:9), os homens viam ali um publicano, traidor do povo, um desprezível. Jesus, ao olhar para ele, viu mais do que um publicano. Viu o desejo que ele tinha de ser aceito novamente, de ser reintegrado ao seu povo.  E lhe disse, vem comigo!
Ao olhar para Pedro, na praia do Mar da Galiléia, viu, sob a aparência rude do pescador, um coração bondoso, um espírito voluntário.
Ao olhar para Herodes viu toda a arrogância da sua alma e o seu desejo de tirar proveito de qualquer situação por mais aviltante que fosse. Foi por isso que se recusou em atender o desafio de Herodes de proceder alguns milagres em sua presença (Lc 23:8, 9).
Ao olhar para Pilatos viu a covardia estampada em seu rosto. Viu o seu compromisso com o poder, mas não com a justiça. Viu a submissão cega ao poder romano e o descompromisso para com a verdade. Viu o desejo de manter-se no poder a qualquer custo( Jo 18).
Essa é a maravilha de olhar de Jesus.
Por que então, ao olhar para Pedro, na sala do Sinédrio  provocou lágrimas? Foram lágrimas de desespero ou lágrimas de esperança? Por que foi maravilhoso aquele olhar?
Foi maravilhoso porque Jesus, mesmo sendo capaz de desnudar a alma humana e descobrir todas as suas mazelas, não expunha as pessoas ao ridículo e nem as desesperançava. Não lhes jogava em rosto a fraqueza descoberta.
Jesus previa os acontecimentos, avisava os envolvidos, mas não esperava que eles compreendessem plenamente as suas instruções.  Ele sabia o que ia acontecer, mas compreendia a fraqueza humana em evitar que o fato se concretizasse.
Ele, ao desvelar a alma humana, penetrava também nas lutas internas de cada ser, nos conflitos da alma, nos desejos humanos e na incapacidade humana para gerenciar as emoções nos momentos de tensão.
Quando Ele alertou a Pedro de que O negaria três vezes naquela noite, não estava chamando a Pedro de covarde ou querendo revelar a sua fraqueza (Mt 26:34). Na realidade, Ele estava dizendo: Pedro, você é um forte, um homem sincero e destemido. Alguém que enfrenta o mar bravio sem temor, que está disposto a dar a vida por esta causa  que abraçou. Mas, Pedro, a situação pela qual irei passar, a cena que você  vai presenciar, se me acompanhar, é indescritível. Será tão cruel, tão desesperadora, tão desumana, tão inédita que você não vai conseguir compreender e, conseqüentemente, não conseguirá  suportar. Quero poupá-lo desse sofrimento atroz, dessa cena desesperadora. Não quero vê-lo arrasado, desiludido com tudo e com todos  e por isso o aviso para que você se poupe dessa hora. Não tente me apoiar quando Eu estiver preso, Pedro. Você não conseguirá. A situação se afigurará pior do que tudo que já foi vivenciado ou imaginado por você, por isso você não suportará e me negará três vezes.
Ele queria evitar a dor de Pedro, mas Pedro não compreendeu como muitos de nós não compreendemos e não compreenderíamos se estivéssemos lá.
Pedro imaginou que nada poderia ser pior do que o mar bravio, que nada poderia superar as injustiças sociais presenciadas por eles continuamente, que nada superaria as desilusões que o povo  sofria em relação aos líderes. O pior já estavam vivendo, pensava ele.
E Pedro entendeu que deveria apoiar Jesus, nesse momento. Que deveria segui-lo de perto para dizer-Lhe: aqui está o seu amigo. Jesus compreendeu que seria inútil insistir e se calou.
E Pedro foi acompanhando os guardas quando estes levaram o seu Mestre. Queria ser útil, apoiar.
No entanto, ao chegar ao sinédrio o que ele presenciou era pior do que o imaginado. A Esperança de Israel estava sendo desprezada, esbofeteada pelos sacerdotes, maltratada pelos líderes religiosos da sua nação.   E o Mestre, tão corajoso, que dominava o mar e que expulsava os demônios não abriu a Sua boca.  Havia o Mestre se acovardado?
Apanhou de um soldado e perguntou calmamente: por que me feres? Ele, que naquela mesma noite havia feito uma escolta inteira tombar-se no horto, agora apanha e ainda perguntou: que fiz de errado para merecer essa bofetada? Parecia alheio ao que se passava.
Aquele que Pedro julgava o dono saber parecia não entender de nada. O forte em denunciar a hipocrisia dos líderes se calara na presença deles. Estava dominado.
Ele que acalmou o mar e curou doentes; que curou  leprosos da doença mais temível da época. Ele que ressuscitou mortos já em estado de putrefação, que chamou os fariseus de hipócritas e desafiou a moral existente indo comer com pecadores,  agora se cala diante dos fariseus que o acusam.
Ele que havia feito os guardas tombarem lá no Getsêmani, e disse que teria doze legiões de anjos à sua disposição agora apanha e pergunta inocentemente: por que me feres?(Jo 18:23)
Diante de tal cena, tão inesperada, uma dúvida invade a alma de Pedro. Seria aquele personagem o Jesus que Pedro conhecia? Estaria de fato tudo aquilo acontecendo ou estaria ele a sonhar em público? Tudo aquilo que ele presenciara, nos três anos que seguiu a Jesus, teria sido verdade ou estivera ele enganado o tempo todo?  Seria Jesus apenas um mágico e ele Pedro, tão cegado pelo fanatismo, teria visto acontecer cenas que, na realidade, nunca aconteceram?
Pedro confuso, diz para a moça que o aborda: “não conheço esse homem” (Mt 26:74). Pedro estava dizendo: não sei se é este o homem que eu estava seguindo. O que eu estava seguindo era um forte, era Deus, curava, dominava o mar e o mundo e jamais seria humilhado como o vejo agora!
Deve haver um equívoco em tudo isso, pensava Pedro. Ou eu estava iludido antes ou estou sendo iludido agora.
Parece que vejo Pedro, à semelhança do filósofo Descartes, dizer: os sentidos me enganam. Ou eu seguia um embusteiro e agora vejo o seu verdadeiro caráter, ou o verdadeiro Deus que  eu seguia escapou das mãos dos soldados e este que vejo é outro que, por estar desfigurado pelos hematomas e abatido pelo cansaço,  se parece com qualquer um, inclusive com ele. Pedro, ao negar, estava tentando ganhar tempo para por os seus pensamentos em ordem e se apropriar da situação.
Quando o galo cantou Jesus ele olhou para ele. E o olhar de Jesus lhe transmite uma mensagem. Pedro, dizia o olhar de Jesus, você é um forte, mas, como eu disse, a situação é pior do que qualquer homem pude suportar. A cena é tão incompreensível, é tão estonteante que eu quis poupá-lo disso. Lembra-se que eu o avisei? Quando vi que não conseguia demovê-lo do intento de me acompanhar nesta hora dei-lhe um sinal. Este galo, portanto,  cantou para lembrá-lo de que Sou Eu mesmo que Estou aqui; que você não está  equivocado; não está seguindo o prisioneiro errado. Sou Eu mesmo, Pedro. O que você viu e o que está vendo agora é a realidade, Pedro. Não há engano e nem ilusão de ótica. É simplesmente isso mesmo, e foi para isso que Eu vim. Aqui estou mais uma vez  mostrando o meu  poder sobrenatural em revelar o futuro e meu pleno domínio sobre as emoções mesmo diante de tanta tensão.
Pedro compreendeu a mensagem no olhar de Jesus e chorou. Foi um choro de frustração diante da sua fraqueza, por isso foi amargo, mas não foi um choro de desespero porque o olhar de Cristo foi confortador, um olhar de quem compreende as falhas humanas cometidas nos momentos de tensão.  Sim, ali estava, de fato, o Messias e o seu olhar  transmitiu uma mensagem de esperança.
Pedro compreendeu isso e o autor do hino cantado também captou a grandeza desse olhar.
O olhar de Cristo é maravilhoso porque não condena. É maravilhoso porque nos diz: não se desespere e nem se envergonhe porque Eu sabia que a prova seria difícil  e estaria além da capacidade humana de suportar.  Você não me traiu, você não é um covarde. Você é apenas um ser humano que está vivendo no limite, portanto, não entre em pânico.
Este é o olhar de Cristo e por isso é maravilhoso.
Lucas 22: 54 – 62       
Antonio Sales      profesales@hotmail.com
Bodoquena, 16/01/2002.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Bom Samaritano


No Evangelho Segundo Lucas encontramos, entre as muitas parábolas de Jesus, a conhecida como “Parábola do Bom Samaritano”(Lc  10:25 ). De acordo com o texto bíblico um homem que ia de Jerusalém para Jericó foi assaltado, espancado e depois abandonando como morto. Horas depois passaram por ali dois religiosos, que atuavam diretamente nos serviços do templo, e um  samaritano. Passaram em horários diferentes e o samaritano foi o último deles. Os dois primeiros não se deram ao trabalho de pensar no problema do homem e o terceiro o socorreu  merecendo o respeito de Jesus. O que socorreu pertencia a uma nacão de desprezados pelos judeus, a um grupo tido por apóstata  que perdera o direito à herança divina. Foi ele quem atendeu o moribundo e recebeu a aprovacao divina.
Essa parábola é atual. O homem (ser humano) está desamparado em meio a um turbilhão de informações. Já não sabe mais educar os seus filhos, já não tem mais as garantias de antigamente (embora tenha outras maiores e melhores) que lhe davam um norte. A absoluta autoridade dos pais, a certeza de que o amanhã será igual (ou quase igual) ao hoje,   a “firme” palavra dos líderes religiosos e a moralidade de aparência eram certezas que davam um rumo para  a vida de todos. Tudo isso não existe mais, as certezas ruíram e os homens estão no desamparo.
Nesse  momento solene da história passam por nós os religiosos: os pastores e o líderes leigos das igrejas. Olharão eles para nós e nos socorrerão? Precupar-se-ão com o nosso desamparo?
Durante muito tempo alimentei a ilusão de que um pastor estava a serviço do povo. Pensava que podia contar com ele para orientacão, como mediador de conflitos e como sábio conselheiro. Pensava ainda que ele se posicionaria ao meu lado quando eu estivesse em apuros, sendo caluniado ou ludibriado por alguém.
Eu não esperava ter razão sempre, receber sempre um tapinha nas costas ou coisas do tipo. Esperava que ele defendesse, na prática e do púlpito, a minha dignidade, o meu direito de ser respeitado, o meu direito de, às vezes, errar enquanto tenta acertar, o meu direito de pensar, discordar e sugerir.
Espera que dissesse que não é só ofendedo a Deus que se peca, que não é só a honra da igreja que deve ser protegida (existe instituição sem o ser humano?).
 Queria que ele dissesse que a calúnia me ofende, me faz sofrer. Que ele assumisse que a criança precisa de proteção e que falasse sem rodeios e sem espiritualizações contra a violência doméstica. Que propusesse projetos sociais para orientar os jovens contra as drogas e preparar o  jovem que precisa de emprego. Que distribuísse, na igreja, endereços das delegacias de proteção à mulher e me ensinasse como fazer denúncias. Que se posicionasse quando alguém, maldosamente, solapasse a atividade do outro, na igreja.
Como se pode ver, eu não esperava muito. Esperava que ele fosse humano e não divino, que vivesse nesta terra e não no céu, que se preocupasse com o ser humano tanto quanto se preocupa com Deus e com a honra da igreja. Que assumisse que um sermão condenatório e sem as devidas orientações sobre como proceder é tão irreverente quanto o cochicho dos jovens. Esperava que ele deixasse de ficar repetindo coisas mil vezes proferidas e atualizasse o discurso. Que evitasse as citações enfadonhas e as  compilação por se falta de ética e de competência. Queria que o salário de um pastor trouxesse resultados práticos em benefício da igreja.
Descobri, para o meu desamparo, que não posso contar com eles porque eles estão a servico de Deus e não dos homens. Eles são o levita e sacerdote da parábola e não o samaritano.
Eles não somente vivem isso, mas pregam abertamente sobre isso embora condenem os dois personagens da parábola. Que eles vivem isso constatei na minha vida como membro de uma igreja por mais de 45 anos. Que eles pregam sobre isso qualquer pessoa pode constatar. Quando eles se propõem a tratar de relacioamentos em seus sermões, ou condenar erros, focalizam o tempo todo o desagrado a Deus e a desonra da igreja. Em nenhum momento falam do sofrimento que causamos ao outro com o nosso comportamento, do respeito que devemos ao irmão etc. Eles defendem abertamente a honra de Deus e procuram ocultar as desonras que sofremos porque se elas vierem a público “mancharão” a honra da instituição.
Foi por esse discurso  que percebi que estavam voltados para a defesa de Deus e não do homem. Percebi então um enorme descompasso entre a atividade pastoral e a vida cristã.
Analiso esse descompasso nos parágrafos seguintes. Faço, às vezes,  em forma de questões para que o leitor tire suas próprias conclusões.
Deus precisa de defensores ou de testemunhas da Sua bondade, tolerância e respeito pelo outro? Um Deus de verdade precisa de defensores (Jz 6:31)? Por que Jesus elogiou o samaritano se eram os outros dois que defendiam a Deus, que viviam e defendiam a religião?
Sei que defender a Deus ou voltar-me apenas para as questões religiosas é muito  mais facil. Não se corre o risco de desagradar ninguém  (Deus não manifesta o Seu desagrado) e se é  tido por neutro, imparcial. Essa postura garante o emprego em uma instituição que perdeu de vista a sua funçào social.
Além disso (nessa perspectiva de suposta neutralidade), sempre se pode dizer que não fez por questão de consciência e se pode até burlar aqueles que querem nos cobrar alguma coisa. Toda pessoa que serve a um patrão e trabalha cedida para outro patrão consegue, se desejar, enganar os dois. Para um ele diz que não recebeu tal ordem e para o outro dirá que não recebeu apoio para executar a ordem. Será que é essa a intencão dos pastores: escapar de qualquer cobrança?
Em segundo lugar penso que essa ideia de trabalhar para Deus está em descompasso porque o salário é pago pelos homens.  Alguém poderá protestar dizendo que é pago pelos dízimos e os dízimos são de Deus. Os dízimos são de Deus como os impostos são do governo: quem paga é o povo, é na mesa do povo que ele faz falta, e por isso deve retornar em benfício do povo.
Por que Deus não envia o dinheiro diretamente dos cofres celestiais para eles? Será que o fato de Deus instituir o dízimo (a ser pago pelos seres humanos) não é uma indicação de qual deveria ser o foco do trabalho do pastor? “Digno é o trabalhador do seu salário” disse o apóstolo (1Tm 5:18). Digno é o povo de ter retorno pelo que pagam, dizemos nós.
Nem eles acreditam que são pagos por Deus, pois se acreditassem não ficariam desesperados quando os dízimos começam cair  e não fariam tantos apelos à chamada mordomia cristã, sempre com ênfase no dinheiro.
Não estou propondo que os fiéis deixem de devolver o dizimo assim como nunca passou pela minha cabeça pregar a sonegacão de impostos. Questiono o uso, o discurso e quero apenas entender e chamar a atencão dos fiéis acerca dos direitos que eles têm de receber um bom atendimento por parte dos pastores. Esse bom atendimento já foi parcialmente definido parágrafos acima.
Tanta coisa para ensinar ao povo, tanta coisa para fazer pelo povo, mas não se faz porque se trabalha para Deus. O que diria Jesus a esse respeito? Pastor tem que ser neutro? Pastor é para pastorar o povo ou  a Deus? É para cuidar do povo (orientando, promovendo justiça), tomando posição ou só da igreja? Deve se poscionar ou ficar “em cima do muro” para evitar reveses e  garantir o salário?
Trabalhar para o ser humano não e só pregar. Inclui  ensinar, mediar confitos, orientar com base em conhecimentos científicos, promover um relacionamento saudável, ajudar mais e cobrar menos, se fazer mais presente, condenar menos e incentivar mais as iniciativas particulares. É ter um compromisso com o povo e seguir o exemplo de Moisés (Êx 32:32). É saber que um sermão com base no senso comum não ajuda ninguém. É ter consciência de que um sermão com base em citações prolongadas e juntadas por acaso não acrescenta saber.
E tudo isso e muito mais.
Alerto que escrevo essas linhas tendo por base minha vivência religiosa em um instituição específica. Pode não ser a experiência de mais ninguém e cada leitor escreverá a sua própria versão moderna da parábola do Bom Samaritano.
Antonio Sales  profesales@hotmail.com
Nova Andradina, 21 de setembro de 2011.

sábado, 17 de setembro de 2011

Perguntas


 Mais uma vez estou brindando o leitor. Desta vez com o poema "perguntas" do jornalista Genival Mota, com a permissão do autor.

Perguntas

E se...
E se a vida for mais vida
Do que pensamos ou queremos?
E se a morte for menos morte
Do que imaginamos ou tememos?

E se depois, Demas conseguiu conciliar
O amor ao presente século com o futuro?
E fez como João Marcos
Que assumiu seus riscos e furos?

E se a nossa visão sobre a lei
Estiver estreita demais?
E isto não nos transforma
Em falsos liberais?

E se estivermos adorando a Igreja
Em vez de adorar a Deus?
E se a gente nem se deu conta
Que não passamos de fariseus?

E se o culto se transformou em algo
Que nem paramos para pensar o que é?
E se estivermos realizando por orgulho ou
Comodismo o que deveria ser feito por fé?

E se aos momentos de adoração
Agregarmos a reflexão?
Não foi isso que Deus fez
Durante toda criação?

E se nossos encontros fossem menos
Repetitivos e previsíveis?
Estaríamos falando em mudanças
Determinantemente impossíveis?

E se o que é velho dar a
Mão ao que é novo?
Não tem sido esta a atitude de
Deus e do Seu Renovo?

E se a liberdade fosse mais
Exercitada entre nós?
Muito mais pessoas não teriam
Mais direito, vez e voz?

E se parassem para discutir
Algumas dessas perguntas?
Será que como pessoas
Não cresceriam juntas?

Tantas perguntas, tantas questões!

Genival Mota, Campo Grande, Julho de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Por que Ir à Igreja?- VI


Minha experiência religiosa foi constituída na convivência com uma igreja  evangélica tradicional que se considera a portadora da verdade eterna. O culto formal, os horários programados para cada atividade, os hinos previamente ensaiados, as orações com começo e fim programados e muitas delas repetidas faziam parte do meu mundo religioso e constituíam a minha verdade sobre a forma de adoração. Qualquer variação  nessa rotina soava estranha e me incomodava.
Um culto diferente desse era desordem, desagradava o meu  Deus e provocava mal-estar. Certo dia fui convidado a visitar uma igreja evangélica não convencional. Atendi o convite. Ao entrar, já um pouco atrasado,  deparei com o coral apresentado uma mensagem supostamente ensaiada, embora diferente do que estava acostumado a ouvir. Ao mesmo tempo ouvi, atrás de mim, uma voz clamando aleluias e glórias a Deus.  Aturdido olhei para um lado e vi dois “irmãos” que se cumprimentavam sorridentes e, em rápidas palavras, punham em dia as informações familiares e pessoais.
Nesse ambiente estranho e em busca de confirmação de que ali não reinava nenhuma ordem racional, olhei para o outro lado esperando encontrar alguém ajoelhado orando. Não encontrei, mas mesmo assim tudo me pareceu estranho. Minhas convicções de que a minha igreja era a verdadeira e tinha a forma correta de culto se confirmaram. Na época o que estava em questão na minha vida era provar que as outras formas de adoração estavam erradas, que havia uma única ordem correta.
Hoje, depois de muito tempo, e buscando entender a dinâmica da adoração,  penso diferente e constantemente me pergunto:
O que havia de errado naquele culto? Que mal haveria se alguém se ajoelhasse naquele burburinho e falasse com Deus?
Um culto assim é o caos, dirá alguém. Uma verdadeira desordem, dirão outros. Talvez, sim, respondo eu. Tudo depende do ponto de vista. O matemático Benoît Mendelbrot mostrou que há ordem no caos. Há uma ordem microscópica no universo aparentemente caótico. Pensemos em uma escola. Enquanto o professor faz uma coisa, o aluno faz outra, o diretor faz outra, a cozinheira “destoa” totalmente desse conjunto e o pessoal da limpeza, então, está ocupado com outra coisa. Há desordem na escola?
E a cidade, com suas múltiplas funções concomitantes, é desordenada?
Dirá alguém: mas a igreja é um espaço pequeno!
Pequeno é um advérbio polissêmico, tem múltiplos significados. A sua igreja é pequena em seu aspecto físico, isto é, pela estreiteza das suas paredes ou é pequena pela estreiteza mental das pessoas que a frequentam? É pequena pela pouca altura do seu teto ou pela pobreza das ideias? É pequena porque as janelas são estreitas ou por causa do olhar enviesado dos seus líderes?
Pergunto: havia caos nesse culto que citei linhas atrás ou apenas uma ordem diferente? Não haveria uma ordem individual nesse, aparentemente caótico, culto coletivo?    
Se a igreja é um lugar para adorar, para aprender, para ver a Deus, para compartilhar com os irmãos, para me autoavaliar e para olhar para fora, como é possível fazer tudo isso em um culto formal? Se temos que ficar em silêncio, como podemos cumprimentar os irmãos? A adoração é um ato coletivo ou individual? Se é coletivo então o tradicional está correto, se é individual então aquele culto que me assustou tem a sua razão e ser.
Parece que a religião é coletiva, mas o culto é individual. É possível adorar a Deus em espírito e em verdade coletivamente? Há sentimento coletivo de gratidão? Todos têm os mesmos motivos ao mesmo tempo? Todos se expressam do mesmo modo? Quem não consegue cantar tem que cantar assim mesmo? Quem vai à igreja para encontrar os irmãos tem que ficar em silêncio ouvindo o sermão? Quem quer louvar a Deus, sem cantar, não pode?
O que haveria de errado em um culto onde enquanto um canta o outro ora, o outro clama aleluia e o outro sorri para o seu amigo? Todos terão que ir à igreja para ouvir o mesmo sermão ou cantar os mesmos hinos?
Tenho um amigo que encontrou uma maneira, no meu entender, inteligente de burlar os sermões  improdutivos. Ele leva um livro e se o sermão não está palatável ele desliga-se e concentra na leitura.
Outra pessoa leva a Bíblia e o IPAD. Se o sermão está improdutivo ela liga o aparelho e faz buscas em sites interessantes. Um dia o pregador se incomodou e criticou o uso do IPAD na igreja e ela, à saída, com bom humor brincou com ele: trago a Bíblia impressa e a Bíblia no IPAD. Quando acaba a bateria da Bíblia impressa uso a do IPAD. Em outras palavras: se o sermão está sem vida busco vida em outra fonte.
Penso que uma igreja para todos tem um culto para todos também. Um culto para todos admite que uns cantem enquanto outros oram, que alguém permaneça no pátio  enquanto o outro prega. Até porque a conversa de quem está no pátio pode ser sobre o sermão ou a elaboração de um projeto de assistência. Será que temos que pressupor que todas as pessoas são mal-intencionadas, desinteressadas, etc.?
Se o sermão for interessante possivelmente todos, exceto as crianças, prestarão atenção. Se a música tiver relação com a experiência de cada um possivelmente se ouvirá améns, brados de aleluia e até um ou outro sorriso de felicidade. Se a oração pública for envolvente é possível que se ouçam múltiplos améns.
É possível também que durante algum hino envolvente alguém se ajoelhe para orar ou que alguém se levante e vá o púlpito para entregar-se voluntariamente ao Senhor e  outra pessoa vá, no mesmo instante, recebe-lo e orar com ele.
Estou propondo outra ordem no culto, uma ordem para todos, uma ordem que atenda as particularidades.
Será que aquele irmão que ficou no pátio conversando voltou para casa menos revigorado do que aquele que ficou na nave da igreja se controlando para não rir do sermão? Será que aquela irmã que gastou todo o seu tempo tentando entender um sermão desconexo foi mais beneficiada do que aquela que passou o mesmo tempo embevecida com o sorriso do seu filhinho? Será que aquele irmão que  leu durante o culto aprendeu e adorou menos do que aquele ficou ouvindo um sermão em que o pregador ocupou o púlpito somente para preencher espaço? Há pregadores que ocupam o púlpito para desabafos e outros, porque estão na escala. Há ainda aqueles que não sabem que não sabem, que pensam que têm uma mensagem mas têm apenas uma enrolação. De que vale a formalidade desse culto? Qual a ordem que li existe? Será  a ordem do autoritarismo ou a ordem da ignorância que predomina?
Nova Andradina, 15 de setembro de 2011.
Antonio Sales                                profesales@hotmail.com

domingo, 11 de setembro de 2011

Por que ir igreja?-V

Há um quinto motivo para ir igreja.  É o terceiro na perspectiva de Yancey (2010). Devo ir à igreja para olhar para fora.   Esse “fora” me inclui porque atuo no mercado de trabalho, enfrento conflitos familiares e trabalhistas. Não é um olhar para fora pensado somente nos outros, com o objetivo de ver o horror dos noticiários e as ameaças do tempo ou das pessoas e depois simplesmente denunciar e por grades nas janelas para que os outros não me atinjam. Não é o olhar com desprezo para aqueles que não comungam com as nossas ideias.
Enquanto estou na igreja,  se falei com Deus, se falei com os meus irmãos, posso agora olhar para fora em busca de oportunidades de serviço.
Olhando para fora vejo falta de ética na política, conflitos familiares, famílias destroçadas pelas drogas, pessoas desempregadas, jovens sem perspectiva e tantos outros problemas que precisam de enfrentamento. Um enfretamento que não posso fazer sozinho, mas posso fazer com a minha comunidade e em nome de Deus.
Em algumas denominações religiosas os membros incorporam a ideia de que olhar para fora é levar uma cesta básica em determinadas épocas do ano, de preferência no Natal. É a versão evangélica do “bom velhinho”, o Papai Noel, que uma vez por ano passa distribuindo presentes e depois nos abandona por mais doze meses. 
Uma cesta básica em um momento de emergência e justificável, mas fazer desse procedimento o centro da assistência social é nutrir a pobreza. Mais digno do que uma cesta básica é o preparo para o trabalho, é levar orientação, ensinar sobre o uso do tempo e dar oportunidade de emprego.
A comunidade religiosa deveria planejar cursos de administração do orçamento  familiar, manicure, costura, artesanato, gerenciamento de conflitos familiares, posicionamento ético, canto, arte de falar em público, mediação de conflitos, relações pessoais, informática básica, cuidado de crianças e de idosos e a arte de contar histórias (útil para aproximar os idosos dos seus netos). Poderia ainda proporcionar reuniões de “autoajuda”, a saber, reuniões de aconselhamentos coletivos onde os membros se aconselham mutuamente. É um trabalho muito grande para uma pessoa, mas possível para uma comunidade.
“Guiar no serviço” deveria ser mais do que um slogam. Deveria ser uma prática contínua, um trabalho apoiado pela comunidade de crentes.
Conheço alguns trabalhos que dão certo e merecem ser imitados. Tenho o privilégio pessoal de colaborar, ainda que não com muita regularidade, com projetos dessa natureza.
Em Campo Grande, o professor e jornalista Genival Mota investe nos jovens. Há doze anos ele dirige o que denominou de “Projeto de Vida”. O programa tem por objetivo preparar o jovem para a vida através de leituras, palestras e atividades práticas. Muitos deles venceram a timidez, adquiriam o hábito da leitura e hoje estão no mercado de trabalho graças aos esforços do Mota.
Um convênio com o Hospital Adventista do Pênfigo tem possibilitado o acesso dos jovens do Projeto de Vida ao programa jovem aprendiz. Hoje o seu trabalho começou se estender para outras comunidades onde há pessoas que se preocupam com os jovens e os apoiam.
Ainda em Campo Grande, MS, temos o trabalho do senhor Charles Ibanez em favor dos idosos. O Centro de Apoio aos Idosos ou CAI desenvolve atividades de orientação, de lazer e de assistência aos menos favorecidos que após anos de lutas sentem–se sozinhos ou inseridos em uma família que não tem tempo para eles. Não sei precisar o número de anos em que o irmão Charles, como é conhecido o coordenador do CAI, vem se empenhando em favor dessa classe de pessoas, mas penso não exagerar se disser que ultrapassa a duas décadas.
Em nível de Brasil temos os grupos de apoio Amor Exigente (AE).  Composto por voluntários o programa AE se distribui por todo o Brasil e outros países da América do Sul e tem se empenhado em apoiar famílias que têm a infelicidade de se ver desestruturada pela presença da droga ou de um “comportamento droga”.  O AE tem um programa de trabalho que vem dando certo e são inúmeras as famílias que se reergueram graças às lições que aprenderam lá.
Por que não pode a igreja empenhar-se em um projeto ou programa dessa natureza?
Quando vou à igreja e olho para fora busco oportunidades de serviço e conto com o apoio dos irmãos para enfrentar os desafios que o “serviço” me apresenta. 
YANCEY, Philip. Igreja: por que me importar? São Paulo: Vida Nova, 2010.
Nova Andradina, 10 de setembro de 2011.
Antonio Sales                                profesales@hotmail.com

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Por que Ir à Igreja? –IV



 Insistimos que o objetivo de ir à igreja não está  centrado apenas na adoração a Deus, porque não acreditamos em um Deus que vive de adoração. Quero dizer um Deus que necessita ser adorado para sentir-se útil, sentir-se bem e para ter disposição para atuar em favor dos seres humanos.
Se um ser humano que necessita ser bajulado  não nos deixa boa impressão, não nos  causa prazer em conviver com ele, o que dizer de um Deus que quer ver todo mundo de joelhos na Sua presença? 
É confortável pensar em um Deus assim? Jesus disse que Ele pode ser adorado em qualquer lugar desde que  seja feito em espírito e em verdade? Está aí algo para se pensar.
Por hoje vamos considerar outros aspectos da finalidade de se ir igreja. Já falamos em aprender a viver a religião (inclusive adorar a Deus em espírito e em verdade). Também já falamos na convivência, na igreja como local de praticar a tolerância, o afeto, o diálogo e o encontro de irmãos.
Já falamos de “olhar para cima”.  Dissemos que a igreja nos proporciona essa oportunidade de ter outra visão de Deus.
Mas ainda é Yancey (2010) quem nos diz que devemos ir  igreja para olhar para dentro, para nós  mesmos.  
Precisamos de parâmetros para ver a nossa verdadeira dimensão.  Precisamos nos avaliar, mas avaliar é medir e medir é comparar.
Há três formas de medir ou de comparar. Uma delas é comparar um objeto com ele mesmo. Por exemplo: como estava antes e como está agora. Outra forma é comparar com as medidas padronizadas (metro, litro, quilograma, volume). Medimos os objetos comprando-os com o padrão. Por exemplo: Se nos disserem que determinado recipiente de formato exótico tem capacidade para cinco litros já conseguimos imaginar a quantidade de líquido que ele comporta porque comparamos com os vasilhames de um litro que conhecemos.
Porém, nem sempre medimos com unidades padronizadas. Por exemplo, para dizer se algo como mais alto que, mais baixo que, melhor que, maior que ou menor que temos que levar  em conta o contexto em que o objeto está  inserido. Portanto, pode-se medir pelo contexto.
Uma razão para eu ir  igreja é avaliar-me. Preciso ser avaliado frequentemente. Para isso posso comparar-me comigo mesmo, o antes com o depois de certa convivência, ou uma experiência qualquer. É uma medida extremamente subjetiva embora muito útil. Quando os pitagóricos resolveram medir a diagonal do quadrado pelo lado do próprio quadrado se depararam com os números irracionais. Uma grande descoberta, mas que os deixou embaraçados por muito tempo. Isso significa dizer que medir-se com base em si mesmo, em seu próprio progresso, pode não fornecer um parâmetro exato. Isso significa que não podemos descartar essa medida, mas é bom adotar também outras formas.
Posso me avaliar também pelo padrão que ao contrário do quer muita gente pensa não é Jesus Cristo.  Pela Sua característica especial, pela Sua ligação direta com a divindade, Ele se torna um padrão elevado demais para o ser humano. Considero uma covardia comparar o ser humano com Jesus Cristo.  Tanta covardia quanto escalar crianças de dois anos para compor um time de futebol, jogar contra um time composto por jogadores do porte de Pelé e esperar empate.
Por ser humano devo avaliar-me e avaliar meu entendimento da vida e da religião por algum modelo humano, por algo ditado por uma instituição humana. Quando vou à igreja para me avaliar pelo padrão estou pensando na lição bíblica (lição da Escola Sabatina ou Dominical). Ela, supostamente, está em conformidade com a crença institucionalizada e a instituição religiosa dita as regras do viver dos seus adeptos.
Essa lição é o padrão desde que o professor tenha captado a mensagem do autor ou da instituição  e consiga produzir reflexões a partir dessa mensagem. Se o professor não acompanhar o raciocínio do autor e continuar fazendo o mesmo discurso que vem repetindo há décadas então essa lição deixa de ser um padrão para ser mais um disparate. Uma perda de tempo.
Supondo um contexto ideal (um professor preparado e coerente), então vou à igreja para avaliar os meus conhecimentos sobre a vida religiosa e para ver como está o meu progresso vivencial em relação ao padrão proposto pela instituição.
Uma terceira forma de avaliar é pelo contexto. Na igreja vejo como as famílias se relacionam internamente, como se respeitam (ou não), como os jovens que não são meus filhos estão sendo conduzidos. Posso ver como as esposas estão sendo tratadas e verificar se estão felizes assim. Alguns sermões são bem elaborados e fornecem  informações úteis sobre relacionamentos familiares que permitem minha autoavaliação. Vejo como as pessoas gostam de ser tratadas pelos amigos e avalio a minha forma de tratar as pessoas a partir dessa indicação, vejo o entusiasmo com que um irmão canta, mesmo que desafinado, e avalio o meu louvor.  Ouço os testemunhos de fé  de algum irmão e avalio como vai a  minha relação com Deus.
Enfim, o leitor já percebeu como o contexto da igreja permite a minha autovaliação. Por esses elementos vejo se estou  “alto” ou  “baixo”,  além ou aquém do esperado.
Esta é a quarta razão para ir  igreja: olhar para mim mesmo através do espelho  da  comunidade a qual pertenço.
YANCEY, Philip. Igreja: por que me importar? São Paulo: Vida Nova, 2010.
Nova Andradina, 07/09/2011

Antonio Sales                                profesales@hotmail.com

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Por que ir á igreja ?-III

Nos textos anteriores afirmamos que o objetivo de ir a  igreja não está centrado apenas na adoração. Deus pode ser adorado em outro lugar desde que seja feito em espírito e em verdade. Propusemos então outros dois objetivos:
O primeiro deles é aprender a viver a religião porque, como afirmou Robinet (2004), religião é um comportamento coletivo. Quando se fala em viver a religião fala-se em  um viver não só para a igreja, mas para a família e para a sociedade. A igreja, nessa perspectiva, seria uma escola onde se ensinaria também ética, moral e relacionamentos (comunicação, tolerância, enfrentamento de problemas, projetos pessoais, leitura, diálogo, atividades sociais e manuais, etc.).
O segundo motivo para ir à igreja seria a comunhão com os irmãos. A igreja seria o lugar da tolerância, da acolhida carinhosa aos frágeis, do perdão, do aconselhamento, do sorriso espontâneo, do abraço afetuoso. Um oásis no deserto (correria, atritos, conflitos, desprezos, fadigas) da vida semanal. Um lugar onde o preconceito seria mínimo, a competição quase nula e a vida em comunidade seria um crescente.
Um terceiro motivo é apontado por Yancey (2010 ). Para esse autor a igreja é um lugar de “olhar para cima”. Olhar  para cima é olhar para Deus.
Deus pode ser adorado em outro lugar: em casa, no trabalho ou no escritório. No entanto, considerando que na igreja se reúnem pessoas que partilham da mesma fé sinto-me mais a vontade para falar com Deus, para me ajoelhar diante dele, para cantar louvores e para falar Dele. Então vou ä igreja também para olhar para Deus.
Ali posso desligar-me do exímio cantor que está à minha frente, do coral que exibe suas melodiosas vozes, do irmão que canta desafinado ao meu lado, do pregador  que discorre sobre algo que não é do meu interesse naquele momento  e concentrar-me em Deus. Ajoelhar-me  em meio a esse burburinho todo e “olhar” somente para Ele. Dedicar alguns momentos para estar a “sós” com Ele testemunhando, perante muitos,  a minha intimidade com o Supremo.
Na igreja posso ver a Deus em Sua magnitude. Contemplar a  Sua “grandeza de alma”, a saber, ver como Ele tolera um pregador que, às vezes,  fala o que não deve em Seu nome; ver como Ele pode sorrir para o jovem que chegou contrariado porque os pais o forçaram a vir; como Ele pode aceitar, ao mesmo tempo, a adoração de um intelectual e de um semianalfabeto. Como Ele pode Se alegrar com o louvor de um exímio instrumentista e ao mesmo tempo com o louvor de um aprendiz. Posso ver como contempla com a mesma benevolência a dama que exibe uma bolsa de quinhentos reais e a “irmãzinha” que  traz apenas um porta-níquel. Como ele aceita a oferta de mil reais do próspero empresário e abençoa, igualmente, aquele que doou apenas  um real.
Como Ele consegue administrar com tranquilidade uma comunidade tranquila que se reúne naquele horário para adorá-Lo e, ao mesmo tempo, cuidar da movimentada cidade que se agita ao  redor da igreja, porque a vida não para enquanto eu adoro. Como Ele pode estar ao meu lado naquele momento de oração  e também no centro cirúrgico onde uma vida corre riscos.
Ali na igreja posso  vislumbrar a sensibilidade de Deus quando uma irmã, com carinho e bom gosto, enfeita o local de culto. Ter evidências do Seu sorriso benevolente quando jovens de diferente etnias, classes sociais e gêneros se unem para coordenar o louvor congregacional.  Enfim, por tudo isso, é possível ver a manifestação da Sua bondade e justiça (Amós 5:24).
Ali na Igreja posso estar quieto e ouvi-Lo dizer: “Aquietai-vos e sabei que Eu Sou Deus”. Sal 46:10
Será que numa igreja como essa (veja os artigos I e II)  alguém chegaria, frequentemente, atrasado?
ROBINET, Jean-François. O tempo e o pensamento. São Paulo: Paulus, 2004.
YANCEY, Philip. Igreja: por que me importar? São Paulo: Vida Nova, 2010.
Campo Grande, 01/09/2011
Antonio Sales                                profesales@hotmail.com