Quando dois jovens planejam se casar normalmente se espera que ele esteja trabalhando, tenha uma profissão definida. Apesar das conquistas sociais, da propalada igualdade entre os gêneros, a profissão ainda é uma obrigação para o homem e uma opção para a mulher. Embora muitos casais já estejam optando por ela trabalhar fora e ele cuidar da casa e dos filhos, ainda parece ser mais natural ela cuidar da casa. Não se rompe com uma cultura multissecular de uma hora para outra. O modelo clássico ainda predomina sobre o moderno.
Particularmente não tenho preferência por este ou aquele modelo de família, penso que cada família deve se ajeitar como melhor lhe parecer. No entanto, vou tomar o modelo clássico como exemplo apenas porque é mais fácil citá-lo. É com base nele que teço as considerações seguintes:
Por que o homem precisa ter profissão ao se casar? Por que a mulher necessita ter habilidades domésticas? Por que se recomenda que o casal tenha própria casa?
Os velhos chefes de família tinham uma explicação machista. Como ele vai sustentar a mulher e os filhos? Era a justificativa que davam para a exigência que faziam. Como ela vai cuidar do marido e dos filhos se não souber cuidar de uma casa? Era o que diziam as senhoras.
Vão morar com os pais, onde todo mundo dará palpite no relacionamento dos dois? Era a justificativa para exigir que tivessem casa.
As justificativas apresentadas não são desprovidas de sentido, mas penso que poderiam ser outras. Quais?
Primeiramente quero lembrar que é muito difícil conviver com uma pessoa infeliz. Um cônjuge infeliz torna-se um fardo para o outro. Ele exige o que o outro não pode dar: a felicidade. Quem se casa com uma pessoa infeliz vê-se constantemente cobrado de coisas que lhe são impossíveis de executar. Vive sob vigilância constante porque o outro está em busca de uma atitude sua que justifique a própria infelicidade. Os infelizes precisam de motivos, ainda que hipotéticos, para serem como são.
Os felizes não precisam explicar a si mesmos porque são felizes, mas os infelizes, sim. É essa necessidade de encontrar razões que torna difícil o relacionamento com um infeliz.
Em segundo lugar penso que para que uma pessoa possa ser feliz ela precisa ter certa estabilidade, já ter conseguido alguma realização pessoal. Uma pessoa com estabilidade, satisfeita consigo mesma, que tenha, no seu histórico, pelo menos, uma realização pessoal exige menos da outra. É mais fácil conviver com alguém que tenha alguma satisfação no que faz porque ela exige menos da gente. Penso que aqui estão as justificativas para esperar que os jovens que vão se casar tenham casa, profissão e habilidades domésticas.
Ter uma casa é uma realização que traz estabilidade e gera menos exigência. Ter uma profissão proporciona satisfação pessoal, segurança, autoestima, logo, produz menos exigências em relação ao cônjuge. Ter habilidades domésticas, de igual modo, proporciona satisfação. Deve ser gratificante saber fazer um saboroso bolo para oferecer ao cônjuge que este chegar do trabalho.
Essa satisfação pessoal produz estabilidade emocional e amplia a chance de felicidade conjugal. Evidentemente que casa, trabalho e habilidades não são os únicos fatores de felicidade. Contribuem para isso múltiplos fatores como: respeito, diálogo, cooperação, afinidades, etc. Quisemos apenas justificar porque no modelo clássico é preciso ter casa, profissão e habilidades domésticas para se casar. Em verdade o que se queria era que as pessoas tivessem alguma estabilidade, alguma realização pessoal, ao se unirem em matrimônio.
Penso isso pode ser generalizado para qualquer modelo de relacionamento.
Campo Grande, 25 de dezembro de 2011
Antonio Sales profesales@hotmail.com