Translate

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

JUDÁ E TAMAR: A VINGANÇA DOS OPRIMIDOS


Continuando nossas reflexões com base na experiência de Judá e Tamar,  relatada em Gên. 38, hoje falaremos sobre a vingança dos oprimidos.
 Os oprimidos sempre recorreram e recorrerão a subterfúgios, os mais estapafúrdios, humilhantes às vezes, para sobreviver - uma forma de se vingar dos opressores. Bajulação, prostituição (com as DSTs), subserviência e fraudes, são expedientes utilizados em prol da sobrevivência. Os brasileiros sonegam os impostos porque se sentem massacrados pelos administradores (é a sua vingança), vendem o voto pelo mesmo motivo. Os filhos quando severamente criados, mentem, fogem, roubam dos próprios pais, odeiam-nos. As mulheres (no passado não muito distante) sempre recorreram a expedientes os mais estapafúrdios porque sempre foram inferiorizadas, massacradas, injustiçadas, tidas por incapazes de administrar. Chegou-se criar um anedotário específico a respeito das mulheres, sempre enfatizando a sua sagacidade em ludibriar os homens; e esse anedotário apesar de exagerado não é totalmente falso ou fantasioso, elas realmente se especializaram nisso. Era sua condição de sobrevivência.
Tamar recorreu à prostituição para receber a herança que tinha por direito. Sabemos que o casamento, o estar sob o domínio de um homem, ter filhos era a única herança das mulheres, na época, e isso lhe havia sido negado, pela morte de um, pela maldade do outro e pela indiferença do terceiro (o sogro).
Ludibriou o sogro como forma de receber a herança. Imaginem só, alguém ter que recorrer a procedimentos menos dignos para sobreviver.
Parece coisa de outro mundo, onde os homens são bárbaros e as mulheres coniventes com a situação. Um mundo de homens vaidosos e mulheres acomodadas. De homens dispostos a pagar para serem amados e mulheres dispostas a vender o seu carinho. De homens dispostos a dominar pela força, pela prepotência, e de mulheres dispostas a dominar pelo subterfúgio. De homens dispostos a explorar o corpo das mulheres e mulheres dispostas a explorar a vaidade dos homens.
É difícil acreditar que vivemos nesse mundo; mundo onde ser honesto é ser candidato a passar fome, é ser cafona. Mundo onde se tem que omitir verdades para sobreviver.
Não é sem razão que muitos se tornam paranóicos; é a fuga, é a negação da sua condição de cidadão dessa sociedade. Às vezes penso que muitos loucos se tornam o que são como um recurso para não enlouquecerem.
Oh! como eu desejaria viver noutro lugar. Lugar de respeito, de verdade, de justiça, onde a ética e a moral reinassem soberanas. Onde se pudesse viver num clima de confiança e tranquilidade, onde se pudesse olhar nos olhos do próximo sem que ele tivesse que sentir-se vexado por isso. Onde se pudesse falar e ser acreditado; ser espontâneo sem medo de retaliações. Onde cada um pudesse cumprir os seus deveres sem ter que preocupar-se com os seus direitos.
 Oh!, que venha logo esse mundo, que se inicie logo essa nova era, essa nova sociedade.
Este era também o desejo do profeta que suspirou: " Vem, Senhor Jesus"[1].
Nova Andradina, 14 de fevereiro de 2012.
Antonio Sales   profesales@hotmail.com


[1] Apoc. 22.20

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

JUDÁ E TAMAR: FRUTOS DO SEU TEMPO


No texto anterior falamos, inspirados em Gên 38, do tempo de Jacó, da concepção de feminilidade que tinham os  homens da época. Falamos da situação desfavorável a que eram submetidas as mulheres, dos seus “direitos”, da sua função na sociedade.
O homem é produto do seu tempo, da sociedade onde vive. Naquela época era permitido o homem se relacionar com várias mulheres, no entanto, a mulher que se relacionasse com mais de um homem seria tida por prostituta.
Jacó era um homem adaptado à sua época. Para ele era normal se relacionar com alguma prostituta. Era viúvo e por isso sentiu-se liberado para tal ato, desnecessário. Um ato praticado apenas para mostrar a sua virilidade, uma vez que, com certeza, teria se casado outra vez caso desejasse ter um compromisso mais sério e um relacionamento mais afetivo e efetivo. Se as mulheres, na época, dependiam do nome de um homem para ter a sua identidade  reconhecida, certamente ele teria encontrado não uma apenas, mas duas ou três, jovens até, que desejassem o seu amparo e se habilitariam a um casamento com ele. Mas lhe dava status, talvez, dizer que esteve com uma prostituta. Ou, quem sabe, dizer numa “roda” de amigos, que explorou uma mulher. Ou ainda dizer que as mulheres estavam à beira da estrada esperando por ele, mendigando a sua afeição. No entanto, a sua nora, também viúva, foi ameaçada de morte por ter recorrido a esse expediente como último recurso à sobrevivência.
Ainda hoje apesar de todo o prestígio conseguido pelas mulheres, apesar de terem dado provas sobejas da sua capacidade administrativa, de estarem proclamando alto e bom som que já não são mais simples objetos de cama e mesa, ainda há homens (felizmente já são poucos) que se recusam enxergar o mundo de outra forma, e, lamentavelmente ainda há mulheres que não acordaram para os novos tempos, para a oportunidade de ter a sua própria identidade.
As igrejas evangélicas desde o seu início reconheceram o valor da mulher e os homens foram, de forma indireta alguns vezes e diretamente outras vezes, admoestados a dar à mulher o seu devido espaço - o que elas souberam ocupar com muita dignidade.
 Hoje temos pastoras, uma evidência de que nós também somos homens adequados ao nosso tempo. Se nada tínhamos contra a participação da mulher por que não a incentivávamos? Simplesmente porque a sociedade não o fazia. Se a mulher tinha o seu espaço por que não o ocupava plenamente? Porque a sociedade não considerava importante, não estimulava.
Dizem os noticiários que os homens estão com a “pulga atrás da orelha” porque estão sentindo-se desprestigiados, ameaçados pelo avanço das mulheres. Penso que isso é, pelo menos em parte,  verdade porque até há pouco os homens, especialmente os machistas, tinham razão econômica para existir. Eles sustentavam a casa, e davam nome à mulher. Faziam dela uma cidadã. As mulheres tinham como razão prática para existir, a maternidade, o fornecimento da matriz para a formação do filho e o aleitamento dele. Só o homem podia fazer uma coisa e só a mulher podia fazer a outra. Os tempos mudaram. A mulher já consegue ser provedora e o homem ainda não consegue ser matriz. Parece-me que para os homens resta apenas uma razão simbólica para existir, enquanto as mulheres tem agora também uma razão econômica para a existência.
Apesar disso acredito que ainda há espaço para o homem que consegue ser um símbolo, pois a humanidade ainda tem necessidade de símbolos. Talvez agora homens e mulheres tenham encontrado a verdadeira razão para a existência mútua, um ao lado do outro.  Talvez agora, nós homens, tenhamos encontrado o nosso verdadeiro sentido.
 Ser símbolo é ser representante, e o homem está presente na família como sacerdote, representante de Cristo, mediador entre Deus e a humanidade. Ele simboliza o poder fecundante do Espírito. Do Espírito que fecunda mentes e corações com nobres ideais, que fecunda a igreja com novos conversos a cada campanha de evangelização. Lamentavelmente o homem não foi educado para isso, para ser esse tipo de símbolo.  Foi moldado para a rudeza, para reprimir as emoções. Foi moldado para trabalhar e pagar para ser amado. O homem, durante séculos, tem sido símbolo de frieza e de arrogância, um verdadeiro desvirtuamento do seu papel. O homem agora precisa aprender a unir opostos tais como: força e sensibilidade, coragem e mansidão, valentia e suavidade, simplicidade e prudência. Ele precisa ser símbolo de Cristo, o mediador entre Deus e a humanidade, portanto, precisa aprender a doçura sem perder a varonilidade, orientar sem ditar regras, se fazer respeitar sem impor medo; enfim, conquistar o amor e não comprá-lo.  O homem não pode mais sentir-se realizado com o ato de pagar para ser amado.
Diante disso uma tarefa difícil se impõe agora sobre nossos ombros, e temo não estarmos preparados para ela. A tarefa agora é aprender a conquistar o amor, é representar a Cristo em Seu exemplo de paciência, coragem e firmeza de propósito.
Aprender a ser símbolo.
Fato curioso. Os estudiosos do comportamento animal, intrigados com a falta de utilidade dos machos de algumas espécies, procuraram pesquisar outras possíveis razões para a sua existência. É que normalmente, o grupo em seu estado natural, é composto de 50% de machos e 50% de fêmeas. Mas os machos não cuidam dos filhotes, não protegem as crias, não as alimentam, não provém sustento para as fêmeas. Por que existem então? Observaram os pesquisadores, que nessas espécies a presença do macho é profundamente significativa para a fêmea. As fêmeas nem chegam a ovular, isto é tornarem-se férteis, se não têm contato com machos. Fêmeas colocadas em convivência com machos sexualmente inativos se tornaram também inativas sexualmente e só voltaram à atividade sexual quando passaram a viver em proximidade de machos sexualmente ativos.
É verdade que nem sempre é prudente comparar a psicologia animal com a psicologia humana, tendo em vista que o comportamento animal é instintivo enquanto o comportamento humano é social.  A observação desses pesquisadores, no entanto, parece-me apropriada, para esta ocasião, uma vez que o heterossexualismo ainda é o modelo mais comum.
De qualquer forma, porém, é necessário que nós, os homens, nos situemos no tempo porque as mulheres já se posicionaram.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

JUDÁ E TAMAR: O TEMPO E A SOCIEDADE


O texto que serve de inspiração para nossas reflexões é o capítulo 38 de Gênesis; o escabroso relato do relacionamento entre Judá e sua nora Tamar.
Abraão nasceu aproximadamente no ano 250 após o dilúvio e Jacó, pai de Judá, nasceu aproximadamente 400 anos depois que Noé inaugurou a “nova geração”[1].   
No tempo de Abraão a terra já estava dominada pelo politeísmo e foi para iniciar um povo que lhe servisse e que divulgasse o Seu nome que Deus o chamou. Judá era bisneto do patriarca mas passara parte da sua vida em Padã-Harã, quando o seu pai cuidava do rebanho do  seu avó materno, Labão. Portanto vivera entre os pagãos e deles aprendera a arte de viver. Além disso, sua família tivera uma vida tumultuada, mesmo depois do retorno às paragens de Canaã. Jacó teve quatro esposas, 12 filhos e uma filha. As duas esposas principais se rivalizavam continuamente.
 Judá viveu numa cultura tão diferente da nossa que dificilmente conseguimos imaginar. A prática usual da época era o direito dos homens. Domínio, infidelidade, tudo lhes era permitido, enquanto nada era permitido às mulheres. Elas seriam tidas por pessoas de sorte se tivesse filhos ou herdasse o nome de um homem. O único sonho possível para uma mulher era casar e ter filhos, encontrar algum homem que a adotasse.
Para nós, do sexo masculino, é difícil avaliar o que significa isso, essa dependência total de alguém, ignorante, autoritário, cheio de caprichos. Aliás, temos uma pálida ideia do que era a vida das mulheres naquele tempo, quando  atentamos para a situação política  reinante em alguns países (e até bem pouco no nosso), onde as leis são feitas para beneficiar  os poderosos, e por isso não são levadas a sério quando se trata dos direitos do mais fraco. Os poderosos não respeitam as leis porque, ao que parece, elas não foram feitas para isso. Foram feitas para proteger o forte do fraco, mas não o fraco do forte. Elas existem para fortalecer os fortes e mantê-los no poder.
 Sentimo-nos indignados quando vemos os nossos direitos vilipendiados e os processos administrativos se arrastando morosamente de gaveta em gaveta, ou processos judiciais extrapolarem os prazos e as respostas chegarem quando não mais precisamos delas. Uma prática relativamente comum no Brasil de poucos anos atrás.
Foi essa a experiência pela qual passou a mulher em tempos passados, sob o domínio dos homens. Foi assim no tempo de Jacó. Foi essa a experiência de Tamar.
Foi essa a experiência de tantas outras mulheres daquele tempo. Nada lhes favorecia, a não ser a pródiga natureza que lhes concedia filhos e mais filhos, quando tinham a sorte de encontrar um homem que as adotassem, mesmo que fossem como segundas ou terceiras.  A mulher era apenas uma fêmea, a procriadora.
Nova Andradina, 03 de fevereiro de 2012.
Antonio Sales    profesales@hotmail.com


[1] Com base nas genealogias apresentadas no livro de Gênesis.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A GRAÇA “BROTA” DA DESGRAÇA?

Estava  lendo um texto produzido pela teóloga Jo Ann Davidson quando deparei com a frase: “antes do pecado, não havia necessidade de graça, porque não havia nada para perdoar, nada para desculpar, nada para cobrir”(1).
Parei a leitura. Veio-me uma dúvida. O que autora quis dizer com isso? Será que entendi o seu pensamento?
No meu entender a graça divina independe da existência do pecado. É como o oxigênio que “alimenta” a vida mas independe da existência dela. Ele deve existir antes da vida para alimentá-la quando ela aparecer. O oxigênio penetra em nossos pulmões de forma espontânea, natural e, por isso, “imperceptível”, mas constante. O oxigênio hospitalar é que é usado após a doença.
Perdão, no meu entender, é uma aplicação emergencial da graça. Na metáfora do oxigênio eu diria que o perdão é o oxigênio comprimido em um “balão” para socorrer o moribundo que já não mais consegue respirar sozinho. A graça, nessa metáfora, é o oxigênio (em seu estado natural) da vida espiritual. Ela é também o oxigênio da vida relacional.
Sem graça não há graça, isto é, sem a graça a vida perde o sentido, somos desgraçados. Sem a graça na vida somos impiedosos, arrogantes, estúpidos, etc. É a graça que promove o amor, a tolerância e a compreensão entre as pessoas. O perdão é uma dose condensada de graça para restaurar a vida do desgraçado. Desculpar só é possível se a graça estiver presente e for o motor da vida da pessoa que foi ofendida.
A graça é o motor das ações de Deus. Criar foi um ato de graça porque foi um ato de amor e o amor é filho da graça. Só ama quem está dominado pela graça, ainda que não saiba disso. É como no caso da criança que vive porque respira embora não saiba que está respirando.
Do modo como a autora escreveu tive a impressão de que ela admite que a graça brota da desgraça. Que é preciso haver desgraça para que haja graça. Se esse pensamento está correto então poderíamos também afirmar que misericórdia brota da miséria? 
Penso que a compaixão pelos miseráveis se manifesta, se torna visível, quando estes se apresentam mas ela não brota naquele momento. Ela existe antes. Se não fosse assim todo mundo se compadeceria de um miserável ao vê-lo.
Se a graça é um atributo divino ela deve ser eterna e há necessidade dela antes mesmo de cairmos na desgraça. Pode ser que ela se torne visível quando há uma necessidade explícita. Pode ser que ela seja intensificada em determinados momentos, porém, desnecessária, nunca foi e nunca será.
O perdão pode ser emergencial, mas a graça deve ser perene.
Ainda metaforicamente: a graça é o ar que enche o pneu de um carro. Antes de o carro começar a rodar o pneu deve estar cheio e permanecer cheio durante toda a viagem. Uma infusão especial de ar (perdão) deve ocorrer quando houver uma des-graça, um esvaziamento do ar (graça)
Concluo que a graça já era necessária antes da queda do homem e o perdão, somente depois.
Que acha o leitor?

Campo Grande, 27 de janeiro de 2012.
Antonio Sales                        profesales@hotmail.com

(1)DAVIDSON, Jo Ann. Juízo e graça no Éden. In DAVIDSON, Jo Ann. Vislumbres do Nosso Deus. Lição da Escola Sabatina de 23/01/2012. Tatui, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ENSAIO SOBRE A BELEZA FEMININA- II

Escrevi há poucos dias um texto sobre o tema. Está neste mesmo espaço.
Sei que o texto foi bem aceito por alguns e criticado por outros. A principal crítica que recebi veio da milha filha. Ela discordou da minha conclusão. Segundo ela quem deveria receber os cumprimentos deveria ser a mulher que consegue se manter, isto é, trabalhar, estudar, ajudar na casa e ainda manter os custos (financeiros, emocionais e físicos) da beleza exterior. A conclusão deveria ser: parabéns para ela.
Concordo com ela. Penso que minha conclusão (cumprimentar o marido e não a mulher) talvez tenha sido resultado de um cochilo. Na realidade deve ter uma razão para eu cumprimentá-lo. Não devo ter escrito isso gratuitamente, mas não consigo lembrar o que me levou a cumprimentar o homem por ter uma mulher bonita de graça. De qualquer forma, ainda que eu venha me lembrar e possa justificar o que escrevi, ela tem razão. Na melhor das hipóteses ela e o marido teriam que ser cumprimentados. Ela pela conquista e ele pelo privilégio. O equívoco talvez não tenha sido em cumprimentá-lo mas na forma de fazer e na omissão de incluí-la.
Penso que um marido nessa condição é um privilegiado e não pode esquecer que o privilégio tem também o seu preço. Não posso dizer qual é esse preço uma vez que cada casal vive experiências diferentes, tem crises existenciais (no matrimônio) por motivos diferentes, problemas relacionais provindos de fontes diferentes. De qualquer forma, nada é de graça, exceto a salvação. Ela paga o preço de manter-se bela e ele deverá, no mínimo, pagar o preço de não atrapalhar as conquistas dela.
Saber reconhecer o valor de alguém que convive conosco diariamente e que, por vezes, nos irrita com suas exigências, não é fácil. Sou um observador dos relacionamentos familiares. Desde muito tenho me mantido disfarçadamente atento ao trato que um confere ao outro e tenho percebido  casais que não se suportam, que há maridos que não suportam ouvir a esposa, embora ela mantenha uma aparência impecável, esteja sempre bem “polida”. Percebo que há mulheres que investem muito do seu salário  em “polimentos” tentando conquistar a afeição do marido, sem resultado.
Há maridos que gostariam apenas que não fossem tão vigados, que não fossem tão cobrados de coisas que ele não pode dar. Muitos homens não foram ensinados a dar afeto e custam muito aprender isso.
Não sendo conselheiro matrimonial não tenho acesso aos meandros da vida a dois a não ser por algumas poucas leituras na área, mas esse é um assunto que me preocupa. Penso que falta tolerância, respeito mútuo e disposição para o diálogo entre os casais.
Quando falo em tolerância falo em admitir que o outro tenha necessidades diferentes das minhas, que se deve ser franco quando algo está nos incomodando, saber que quando o outro reclama ele está (ou deveria estar) reclamando do meu comportamento e não de mim, saber que respeitar o outro inclui o não ficar simplesmente repetindo o que o  irrita (ou condenando o seu comportamento) sem abrir espaço para que ele expresse a causa da sua irritação (ou explique porque age daquela forma). 
De uma coisa estou plenamente convicto: a vida a dois tem também os seus custos.
Campo Grande, 25 de janeiro de 2012.
Antonio Sales                    profesales@hotmail.com

domingo, 22 de janeiro de 2012

ENSAIO SOBRE A BELEZA FEMININA


“Manter-se bonita custa caro”. A voz feminina chegou por acaso aos meus ouvidos. A frase ficou solta. Pensei em contextualizá-la. Fui conversar com a minha filha sobre o assunto. Comecei falando de mulheres bonitas e mulheres não tão bonitas. Ela atalhou: “pai, não existe mulher feia e mulher bonita. Existe mulher mal cuidada e mulher bem cuidada”. Duvidei e perguntei: por que, então, algumas mulheres mesmo recebendo um “polimento” ainda não adquirem “brilho”? Ela encurtou a conversa: “deve ser alguma mal amada”.
Fiquei quieto. Não entendo a alma feminina. Suas ilusões e desilusões são diferentes das minhas. As reações psicossomáticas também. Homem frustrado vira bêbado e mulher frustrada fica feia?
De qualquer forma resolvi contextualizar a frase. Não o contexto original, mas um contexto produzido pela minha mente inquieta.
Manter uma mulher bonita custa caro. Acredito. É preciso cabeleireiro, manicure, costureira, esteticista, cirurgião plástico e cartão de crédito com bom limite. É difícil manter tudo isso. Esses profissionais cobram alto preço e cartão cobra juros altos. Um colega professor dizia que quem quiser enriquecer-se basta montar um comércio para manter o luxo e o vício dos outros. Parece que ele tinha razão.
Ainda bem que muitas mulheres já se mantêm. Deve ser por isso que tem aumentado o número de mulheres bonitas e de cabeleireiro, manicure, etc., também. Os preços também devem ter aumentado. Não somente acredito que uma mulher bonita custa caro e dá serviço para muita gente como acredito que, em alguns casos, a beleza é impossível.
As mulheres que dependem dos maridos raramente ficam bonitas, pois além do controle financeiro deles tem o problema da autoestima delas que fica abalada. Viver entre mulheres bem cuidadas sem poder competir com elas não deve ser fácil. Nesses casos, além da rotina que se instala na casa, porque mulher desestimulada faz da casa um ambiente pouco agradável, ainda aparece o ciúme e as querelas decorrentes. Os efeitos colaterais de uma mulher não bonita são cruéis. Uma mulher dependente do marido, se é bonita pesa no bolso e não é não bonita pesa no relacionamento.
Quero dizer, porém, que uma mulher bonita não é somente aquela que vai aos profissionais citados ou que investe muito dinheiro na aparência pessoal. Uma mulher de bem com a vida, profissional realizada, culta, comedida ainda que se vista de modo simples é bela. É bonita uma mulher bem cuidada e bela uma mulher bem amada. Quando as duas qualidades se juntam numa única pessoa então não sei qualificar o resultado.
Por outro lado, a mulher que depende unicamente de profissionais para ser bonita é, realmente, muito cara. Portanto, mulher bonita e econômica é aquela que é inteligente, realizada, bem humorada. Nessa, os “arranjos” feitos pelos profissionais duram mais tempo e até um despenteado provocado pelo ventilador a enche de graça. Ela “brilha” com pouco “polimento”.
Mulher com um penteado especial e olhar de quem não está entendendo nada é feia. Mulher com vestido caro, mas que não sabe o que falar é feia. Mulher ciumenta é feia, não importa o que o esteticista ou cirurgião faça em seu corpo. Mulher acomodada é feia. Mulher ranzinza é feia. Mulher controladora é feia. Aliás, toda pessoa, homem ou mulher, mesquinha, não disposta a cooperar, que não se preocupa em incentivar e apoiar, que não valoriza o outro, que não respeita as diferenças ou não tem ética é feia, porque o seu caráter é feio.
Mulher não realizada nunca está satisfeita consigo mesma. Não há roupa que se ajuste no seu corpo.  Ela experimenta dez vestidos antes de sair e o marido olha e não vê diferença entre o anterior e o posterior. A sua autoestima está deformada e não há roupa que se ajusta no corpo. Não há cabeleireiro que acerte no corte ou penteado, porque a alma dela está em ruínas. Se o marido tenta intervir ela ainda diz que não está “pedindo opinião”.
Antes de concluir esse pensamento penso que há dois tipos de beleza: a beleza da Forma (exterior, aparência) e a beleza do Ser (interior).
A beleza da forma pode ter três fontes:
1.      A razão áurea
Falar em razão áurea é o mesmo  que falar em número de ouro ou número Fi. O nome Fi foi atribuído pelo matemático americano Mark Barr que resolveu homenagear Fídias, o escultor grego  que teria vivido entre 490 e 430 a.C. e utilizado a razão áurea nas suas esculturas.
O número de ouro é 1,6180339887... , ou o seu inverso 0,6180339887... , e é irracional.
A razão áurea também é conhecida por divina proporção e diz-se, que num segmento AB , existe uma divisão áurea quando o segmento é dividido por um ponto P em duas partes de tal forma que a maior parte seja média proporcional entre o menor e o segmento todo.
Preferimos não gastar tempo teorizando sobre Fi e ir direto à sua aplicação.
Os escultores gregos e posteriores consideravam que uma estátua estava perfeitamente constituída (bela) se a razão entre a  medida do segmento que determina altura do chão até o seu umbigo  e a medida do segmento que determina a altura da estátua for igual ao número de ouro (0, 618...). Da mesma forma a razão entre o segmento que une o umbigo ao topo da cabeça e a medida do segmento que determina altura do chão até o seu umbigo é 0,618... .
Essa mesma razão vale para o rosto. A razão entre a altura do queixo até à linha dos olhos e a altura do queixo até o topo da cabeça também deve ser 0,618... .
Segundo os estudiosos da arte uma escultura que atende esses requisitos matemáticos é agradável aos olhos. Nesse caso, uma mulher que atendesse a esses requisitos seria  a mulher matematicamente bela.
2.                      A simetria (para coisas como objetos, penteados, tecidos, etc.) e a regularidade ou padrão. Em cada região o conceito de beleza exterior é diferente de acordo com a regularidade ou frequência com que aparecem certas particularidades. Em algum lugar do oriente as mulheres mais bonitas são as que têm o pescoço mais comprido e cheio de argolas. Aqui elas seriam feias. Bonito é o que  é mais freqüente, o que está na moda.
3.                      A unicidade ou o inusitado. Quando tudo parece igual, o diferente pode ser bonito.
A beleza do Ser está relacionada com a autoestima, a inteligência, a confiabilidade, a competência, a realização profissional, o linguajar adequado, a ética, a cooperação.
Para concluir: mulher bonita custa caro? Sim e não. Se a sua beleza depende somente do exterior (da forma), sim. Ela é muito cara. Se sua beleza é resultado da aparência exterior e do produto interior, então é preciso rever o que foi dito. Se, além da junção da beleza interior com a beleza exterior, ela ainda se mantém, paga os custos da beleza, então o marido tem uma mulher bonita de graça.
Parabéns para ele!
Campo Grande, 13 de janeiro de 2012.
Antonio Sales             profesales@hotmail.com