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sábado, 16 de junho de 2012

A TEORIA DA ANULAÇÃO



“Ê preciso se anular para contar com Deus. É preciso que o eu seja anulado, que deixemos de lutar por nós mesmos, para que Deus aja em nosso favor.”  Esse discurso hipócrita é a nota tônica de alguns sermões que ouço.
Ele é o ponto central de vários pagadores evangélicos. Suponho  que dizem isso com base  em um Salmo  onde se diz: Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre as nações; serei exaltado sobre a terra” (Sl 46:10). Ou quem sabe tomem por base alguma experiência ou passagem particular da Bíblia. Na realidade não sei de onde tiram essa ideia. Uma leitura cuidadosa da Bíblia nos revela o contrário.
Na Bíblia vemos o tempo todo Deus valorizando os que agem, os que atuam. Deus chamou um Paulo ousado para segui-Lo, um Davi guerreiro para salvar Israel dos filisteus e depois liderar  o povo e valorizou a capacidade intelectual de Daniel. Moisés era manso, mas não nulo. Isto é, era paciente para o com povo, mas não se anulou. A Bíblia louva  os 400 valentes de Davi (2 Sm 23), e não há valente nulo
Por que toda essa retórica da autoanulação que temos hoje?
Tenho uma hipótese, mas meu filho me apresentou outra. Fico com as duas. Elas não são mutuamente exclusivas. Podem conviver lado a lado e até se sobreporem.
Minha hipótese é que o pregador se apoia na anulação para não preparar o sermão. É cômodo falar qualquer coisa, fazer uma miscelânea, preencher o tempo com nada e os ouvidos do povo com mediocridades e ainda sugerir  que Deus fez por ele. É cômodo gastar tempo na internet ou na TV (apesar de hipocritamente muitos os condenarem) e não ler, não pensar no significado do que vai falar, na mensagem que vai transmitir. É por isso que ouvimos sermões medíocres. O triste é que são feitos em nome de Deus.
Deus deve ficar com vergonha do que se fala em Seu nome  nas igrejas.
O “músico” que não quer  estudar teoria musical e discutir filosofia de música, se apoia nesta teoria da anulação para justificar a sua mediocridade e seu discurso ultrapassado.
Sabe-se que a salvação é de graça, mas o alimento diário não. A educação (escola) é de graça, mas o aprendizado não. O perdão nos é fornecidos de graça, mas a mudança do caráter não. Mudança de caráter, conhecimento, alimento, qualidade de vida e de sermão, são frutos de esforço, de reflexão, de discussão com outros, de muito trabalho. São frutos da não autoanulação.
Devemos subjugar a vaidade, não o esforço para melhorar. Devemos anular a hipocrisia, não o esforço  para viver dignamente. Devemos anular a concupiscência, não  o esforço  para ser honesto e viver conforme as regras da moral.  Devemos anular a nulidade, não o estudo e o esforço.
Hipótese do meu filho:
Como ninguém sabe o que se está falando, ou tem coragem de ousar, todos ficam copiando um do outro. Ele contou-me já ter visto isso acontecer. Ouve um sermão onde algumas asneiras são ditas e poucos dias depois, alguém que estava presente prega um sermão repetindo o mesmo pensamento e até as mesmas palavras.
Como disse há pouco, fico com as duas hipóteses. Fico triste, mas fico  com ambas.
É tão ilógico o que ouço nos sermões que concordo com uma amiga paranaense quando ela disse que naquele dia tinha ouvido um sermão para lobos sendo pregado em um aprisco de ovelhas.  Diante da minha expressão interrogativa ela explicou: estávamos na igreja como gente humilde, sincera, em busca de uma palavra de conforto e o pregador nos atacou como se fôssemos uma matilha de lobos selvagens.
Sonho com pregadores mais competentes e menos hipócritas. Que condenem somente aquilo que não praticam e que não vivam buscando desculpas para não fazer melhor.
Nova Andradina, 20 de maio de 2012.
Antonio Sales  profesales@hotmail.com

terça-feira, 22 de maio de 2012

RENÚNCIAS


“Casamento é uma relação que exige renúncias". Essa frase é, de alguma forma, corriqueira. Ela aparece com frequência quando, por alguma razão, a relação matrimonial entra em discussão.
Diante disso quero discutir um pouco essa questão da renúncia.
Há, no meu entender, dois tipos de renúncias: renúncia definitiva e renuncia temporária.
Quando renunciamos a um vício, por exemplo, devemos fazer uma renúncia definitiva. Toda prática abjeta ( o que é repudiado pela sociedade ou pelo cristianismo ) deve ser objeto de renúncia definitiva. Tudo que fere a ética ou atenta contra a moral deve ser renunciado definitivamente.
No entanto, há muitas coisas boas que por algum tempo  entram em conflito com outra igualmente boa. Uma das duas deve ser temporariamente renunciada.
Um exemplo: lazer é bom, mas pode entrar em conflito com o estudo. Renuncia -se temporariamente o lazer, para voltar  a desfruta-lo,  com mais sabor, algum tempo mais tarde.
Há mulheres que renunciam temporariamente os estudos ou a carreira profissional para estar com os filhos enquanto pequenos.
Por vezes renunciamos a companhia constante  de um amigo par aceitar uma proposta de trabalho compensadora em outra cidade. Renunciamos mas ansiamos e planejamos a volta.
Olhando desse ponto de vista podemos dizer que todo sucesso que se obtém na  vida é produto de renúncia, portanto, nada  mal que o casamento seja uma relação de renúncia. O problema ocorre quando o casamento exige renúncias definitivas de coisas  boas, como acontece em muitos casos que conhecemos. Quando o casamento exige renúncia de amigos bons, de conquistas profissionais, de avanço nos estudos, etc. Quando  isso acontece tem algo errado acontecendo.
Quando um cônjuge não se torna a musa inspiradora do outro nas artes, na ciência, no comércio, no exercício da profissão, no crescimento pessoal ou na melhoria das relações sociais, há algo de  errado nessa relação.
Renunciar as relações íntimas com outras mulheres ( ou homens ) para manter-se fiel ao cônjuge é saudável, mas renunciar  amigos para ficar ao lado de uma única pessoa ouvindo, muitas vezes,  as mesmas conversas, as mesmas lamúrias, as mesmas acusações, por anos a fio, pode ser indício deu uma relação doentia.
Renunciar a passeios, estudos, e outras coisas igualmente boas, somente para  agradar um cônjuge cheio de  caprichos pessoais e sem aspirações pode não ser algo recomendável.
Minha conclusão é que renunciar é preciso e é natural que o casamento exija renúncia. O que precisa ser discutido é o que está sendo exigido que se renuncie. Se a renúncia está lhe causando desconforto  não é hora de discutir com o cônjuge a relação? Se você está renunciando definitivamente a algo que é renunciável apenas temporariamente pode ser o momento de analisar os prós e os contras e abrir o jogo com o cônjuge.
Nunca se deve renunciar definitivamente o que deve ser objeto de renúncia  apenas temporária.
Nenhum cônjuge pode exigir a anulação do outro. Nenhum cônjuge deveria negar  apoio ao outro em suas investidas estudantis, empreendedoras ou profissionais.
Evidentemente que tudo isso deve ser discutido.
Que apoio queremos? Nosso projeto é viável? Quais os convenientes e inconvenientes dele? A quem ou a quantos vai beneficiar? Pode ser adiado sem prejuízo? Por quanto tempo? É ético?  Respeita a normas da moral?
É preciso discutir a relação sempre que a renúncia exigida estiver incomodando. Ë fácil fazer isso?
Não, não é fácil porque não se discute com quem é contra a priori. Não se discute com quem tem ideias fixas. Não se discute com quem diz saber o que quer (do outro). Não se discute com quem quer se impor a todo custo. Não se discute com quem não abre mão de nada, ainda que temporariamente. Não se discute com quem tem medo de perder na discussão.
Casamento é renúncia de que? Se você está reclamando da renúncia tem algo errado com você ou com o seu casamento.
Pense nisso!
Nova Casa Verde, 20 de maio de 2012.
Antonio Sales profesales@hotmail.com

 

sábado, 12 de maio de 2012

ÀS MÃES



Dias das mães. O comércio aproveita para oferecer os seus produtos e ampliar as possibilidades de vendas. Há mal nisso? Penso que não. Nessa sociedade cada um cumpre um papel e o comércio tem o seu papel também. Um importante papel. Imagine uma sociedade sem comércio! 
Não podemos condenar o comércio simplesmente pelos atrativos e ofertas que oferece. Ninguém que trabalha com integridade e traz contribuições para a sociedade deve ser alijado, condenado, por trabalhar. Se os nossos filhos estão podendo comprar mais, parabéns para nós. Que deem presentes para as mães. Elas merecem. Vamos orientá-los a comprar o necessário, mas é bom que tenham opções.
É certo que devemos defender um consumo sustentável, mas isso é questão de educação para a cidadania. O comércio, por sua vez,  não pode enganar, mas pode fazer propostas decentes, promoções, etc.
Mas hoje quero falar das mães e para as mães.
Não entendo o que significa ser mãe. Foi-me negado o privilégio da maternidade, mas me foi concedido o privilégio de ser pai. Sei o que é ser pai, sei como se sente  um pai, mas imagino que não é a mesma coisa que ser mãe.
Ela carrega o filho no ventre e o alimenta com o seu corpo. Isso deve fazer uma diferença significativa entre maternidade e paternidade.
Não sei nem mesmo qual a intensidade da "cólica" produzida pela "síndrome do útero vazio", aquele útero que por anos se preparou, mensalmente,  para  receber um  filho e não  o recebeu. Suponho até mesmo que haja uma depressão de origem uterina. De onde seria ela proveniente? Do sentimento de inutilidade do útero? Do vazio existencial desse útero?
Um filho produzido em outro útero supre essa carência? Não sei.
Paul Tournier, psiquiatra suíço, diz que o ventre influencia  nas decisões das mulheres. Para dizer isso ele tomou por base o depoimento de muitas mulheres intelectuais. Ele afirma que as mulheres pensam também com o ventre.
Mas há muitas mães:
Há a mãe do filho indesejado, não panejado. O filho que foi resultado de um sêmen que penetrou no seu corpo sem a sua permissão. O filho que foi gerado por descuido ou o resultado de um sacrifício feito para agradar um homem que não merecia o seu agrado.
Como é carregar essa criança no ventre por tanto tempo e depois cuidar dele como se desejado fosse? Alguém sabe dizer como isso é possível? O que significa viver "amarrado" a alguém cuja presença não desejou? É possível nutri-lo com prazer?
Como se pode o amar o indesejado? Só ela sabe dizer.
Há a mãe do filho planejado. Qual a sensação de produzir, abrigar, nutrir com o próprio corpo uma vida que surgiu como resultado deu um desejo, de um sonho, de um planejamento? Recebi hoje (no dia em que escrevo) o e-mail de uma aluna se justificando pela sua ausência na minha aula. O seu filho deve nascer por esses dias, talvez esteja nascendo hoje (dias das mães). Desejei-lhe sucesso no parto. A aula  é assunto que se discute depois. Na última aula que esteve presente a sua barriga denunciava um parto iminente e o seu sorriso era contagiante.  Fiquei imaginando como será a sua alegria ao ver o bebê sorrindo ou mesmo ouvir o seu primeiro choro. Qual o significado de acompanhar os seus  primeiros passinhos? E de vê-lo depois seguindo o seu próprio caminho? Quem pode compreender a grandeza dessa vida que o gerou e nutriu? O que significa tudo isso?
Há a mãe do filho que nasce. Seu útero nunca mais será vazio. Nunca mais ela sentirá a "cólica" proveniente “do útero vazio”.  A maioria das mães tem esse privilégio.
Há a mãe do filho que não nasceu. Esse útero è vazio ou não vazio? O filho que não chorou preenche o vazio do útero? O filho que morreu antes de vir à luz confere à mulher o status de mãe? Só ela sabe dizer.
Há a mãe que, na ausência do pai, assume também a paternidade e, sem descuidar do afeto, cuida ainda dos aspectos formativos e protetores que caberiam ao pai cuidar. Nesses casos, fazem tripla ou quádrupla jornada.
Há a mãe do filho desejado que "dá certo". Filho que se torna homem (ou mulher) bem sucedido nos empreendimentos econômicos ou intelectuais e, sobretudo, que age nos moldes da moralidade.
Há a mãe do filho desejado que “não dá certo". Aquele filho que se desvia pelo caminho das drogas, da corrupção, da embriaguez, da marginalidade, etc. Que foge ao ideal da sociedade e da família.
Tenho acompanhado alguns desses casos. Tenho visto a dor dessas mães, mas não sei dimensionar a sua profundidade ou extensão. Sei que há muito sentimento de culpa, mas não sei se há algum misto de frustração, ódio ou rancor.
Na realidade não sei o que sentem essas mães. Quisera saber para ajudar mais, para compreender, para sorrir ou chorar com elas no tempo certo.
A mulher que por altruísmo, ou por interesse econômico, empresta a barriga para que outra mulher possa ser mãe também é mãe?
Diante de tanto mistério como me posicionar? Diante de tanta grandeza e de tanta importância de alguém para a vida humana o que me resta dizer?
Feliz Dia Das Mães!

Nova Andradina, 10 de maio de 2012.
Antonio Sales       profesales@hotmail.com

segunda-feira, 30 de abril de 2012

LIDES DO LAR: PROFISSÃO OU SEQUESTRO?-II



Talvez o leitor já tenha observado na prática a nossa afirmação de que lides do lar ainda não é profissão embora se possa  registrá-la em documentos e até mesmo ter carteira assinada como doméstica.
Para mim, profissionalização exige conhecimento técnico, científico ou, pelo menos, uma teorização sobre aquele fazer.
Ao que me parece a ciência já chegou aos hospitais,  à construção civil, ao planejamento urbano, aos tribunais e a tantos outros lugares e instituições, mas ainda não chegou na cozinha. Ainda não chegou em casa, à educação familiar. Não há uma teorização sobre como educar filhos (tem como ensinar filhos dos outros na escola), como cuidar de uma família (tem como administrar uma empresa), como preparar uma alimentação balanceada (tem para restaurantes, hospitais, etc.) ou como enfrentar os dilemas éticos da convivência familiar.
Se houvesse essa teorização poderiam ser oferecidos cursos regulares para noivos, para casais, para mães, para pais,  para gestantes, para domésticas e para babás. Uma teoria não resolve os problemas emergentes, mas prepara a pessoa para pensar sobre eles, identificar suas causas, ter disposição para um diálogo, analisar as proposições do outro, saber explicar-se, etc. Com um pouco de teoria pode-se discutir estratégias, propor alternativas,  identificar as falhas  e pedir ajuda.
Alguns relacionamentos se constituem numa fábrica de culpados porque tudo que se consegue fazer é procurar uma desculpa para si e uma culpa para o outro. A ênfase do relacionamento está no apontar erros, na busca de motivos para sentir-se infeliz na companhia do outro. Na ausência de um pensar sobre a relação, de um parâmetro sobre o que pode ser feito e que estabeleça limites éticos sobra espaço para as  agressões  de qualquer natureza.
Escrevi no texto anterior que  os cursos de preparação para o casamento e os encontros de casais seriam mais ricos se abordassem temas como esses. Se tratassem francamente das escolhas, não de cônjuge (como normalmente se faz), mas de função. Das implicações pessoais dessas escolhas, da necessidade de um preparo especial para assumir as lides do lar e do desgaste intelectual que disso decorre. Discutir também o desgaste  do relacionamento quando o cônjuge tem quando assume a incumbência de sobreviver fora da caverna tendo que, ao mesmo tempo, conviver com alguém dentro dela.
Por que é mais importante  enfatizar a escolha da função que cada um vai desempenhar do que discutir a escolha do cônjuge? Porque a escolha do cônjuge, exceto nos namoros prolongados e quando os namorados são vizinhos,  se baseia na aparência. A aparência é a única parte visível da pessoa enquanto  o caráter, as preferências e  os vícios  podem ser mascarados. A aparência é a face exposta e o restante  pode se basear em promessas que nunca serão cumpridas e em dissimulações.
A função que cada um vai desempenhar é algo pragmático, mensurável, mais difícil de dissimular.

De igual modo, a forma como cada um vai encarar  os dilemas, surgidos quando a “máscara” cair depois de algum tempo de convivência, é mais importante do que se preparar para escolher o que não pode ser escolhido.
Não se escolhe o caráter para o outro.
Podemos concluir que gastamos tempo escolhendo o que não está disponível para escolha e não nos preparamos para as funções que nos caberão desempenhar como atividade profissional ou como articulador no relacionamento.
Penso que, no contexto atual, é mais importante saber o que fazer quando a máscara cair do que saber escolher com quem vai se casar. Tenho a impressão de que pouca gente conseguiu escolher a pessoa com quem se casou. Exceto na antiguidade, quando os homens “moldavam” as mulheres com quem se casavam, todos nós nos casamos com outra pessoa.
Nova Andradina, 30 de abril de 2012
Antonio Sales     profesales@hotmail.com

terça-feira, 24 de abril de 2012

LIDES DO LAR: PROFISSÃO OU SEQUESTRO?


É interessante observar que apesar de vivermos na segunda década do século XXI  e as relações familiares terem passado, e ainda estarem passando, por diversas transformações algumas coisas, ao que parece, ainda permanecem pouco diferentes do que eram antes. Sito o caso da necessidade da profissionalização da mulher e dos serviços tradicionalmente reservados à mulher.
Na nossa sociedade o serviço doméstico ainda não é considerado profissão, isto é, ainda não se requer preparo técnico e/ou científico para cuidar de uma casa. É um trabalho que está, em sua maioria, nas mãos das mulheres menos qualificadas tecnicamente.
Talvez já fosse tempo de oferecer cursos sobre educação infantil para essas mulheres. Penso na educação para a cidadania, para o respeito ao outro,  para o enfrentamento dos dilemas éticos e os desafios morais da sociedade atual. Não entendo como educação aquela imposição de obediência embora aceite que ela faça parte da educação da criança.
Outra que coisa que apesar de toda discussão a respeito ainda não sofreu significativa mudança é a necessidade  da mulher  ter uma profissão, um emprego remunerado, para constituir uma família.
Para o homem, ao se candidatar para o matrimônio, espera-se que esteja trabalhando ou se preparando adequadamente  para isso. Da mulher, nas mesmas condições, não há essa exigência. Não há nem mesmo a exigência de que tenha feito algum curso sobre educação de crianças, na perspectiva exposta acima, economia, relações humanas, etc.
Trabalhar, ter uma profissão, é uma necessidade para o homem e apenas uma opção para a mulher. O resultado é que muitas se casam e, por falta de opção, por escolha do casal ou por acomodação, ficam em casa. Ficam sem um preparo para isso.
Alguns problemas no relacionamento do casal decorrem dessa opção (ou da falta de opção).
Para discutir esses problemas evoco o psiquiatra Paul Tournier(*)
Ele analisando a situação através do depoimento de mulheres de influência, mas que ficaram um tempo  em casa supondo que dessa forma estariam sendo mais úteis à sociedade e à família.
Elas, em seus escritos e depoimentos,  descreviam a vida nesse período como um tédio, onde  a vida se assemelhava a um teatro em que houvesse intervalos. Aquele era o intervalo. A nostalgia tomava conta dessas mulheres como se elas estivessem vivendo na caverna sabendo que lá fora a vida fervilha, as luzes  brilham e as pessoas andam e se banham nos rios e nos lagos.
Uma delas afirmou que ser dona de casa torna as mulheres doentes, incomodadas por verem o outro viver.
Uma delas fez essa importante declaração:
"Compreendi que o moinho comum é alimentado pelos moinhos individuais. Sempre que o meu moinho não girar, nada mais vai girar".
Essas mulheres desafiam as outras  a serem felizes ultrapassando "seus estreitos limites".
Tournier deduz do depoimento dessas mulheres que a"dedicação da mulher a seu marido, a seus filhos e à sua casa não são suficientes para seu desenvolvimento pessoal".  Segundo ele, na opinião delas, não é o  marido  que explora essas mulheres, são elas que exploram o marido. Elas se casam para  se entreterem e se queixam que o lar as entedia.
Vemos por esses depoimentos coletados ou deduzidos por Paul Tournier que as mulheres que ficam em casa muitas vezes se encontram diante de um dilema: deixar o outro viver ou viver com  ele. Viver aqui significa sair da caverna e caminhar pelos campos do saber, contemplar as luzes do progresso social, científico e tecnológico em toda a sua dimensão. Viver significa ampliar as redes de relacionamentos, compreender os dilemas enfrentados pelo outro e ampliar as possibilidades de cooperação.
Penso que os cursos de preparação para o casamento e os encontros de casais seriam mais ricos se abordassem temas como esses. Se tratassem francamente das escolhas, não de cônjuge (como normalmente se faz), mas de função. Das implicações pessoais dessas escolhas, da necessidade de um preparo especial para assumir as lides do lar e do desgaste intelectual que disso decorre. Discutir também o desgaste  do relacionamento quando o cônjuge tem quando assume a incumbência de sobreviver fora da caverna tendo que conviver com alguém dentro dela.
No caso da mulher ficar em casa, nos dias atuais, pode ser considerado como um sequestro em que a mulher se autossequestra.
 NovaAndradina,17/04/2012.
Antonio Sales              profesales@hotmail.com
(*) Pensamentos extraídos do seu livro:  "A Missão da Mulher", publicado em 1988, em São Paulo, pelas editoras: Vértice e Editora Revista  dos Tribunais