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sábado, 11 de maio de 2013

SER MÃE ONTEM E HOJE



Nós, do gênero masculino, temos dificuldades para entender os sentimentos de uma mãe. Nunca saberemos o que significa ser mãe, mas podemos imaginar como temos contribuído para que a sua vida seja melhor ou pior, para que a maternidade tenha mais sentido ou menos sentido.
Neste texto tento conjecturar como tem sido a experiência de ser mãe em diversos momentos da história. Tomo por base a história sagrada do cristianismo supondo que muitos, mesmo não cristãos,  tenham alguma informação sobre ela.
Buscando na antiguidade encontro nomes como Sara (esposa de Abraão), Rebeca (esposa de Isaque filho de Abraão), Raquel (esposa de Jacó neto de Abraão) e Ana (conhecida por ser a mãe do profeta Samuel). O que há em comum entre essas mulheres é que foram estéreis a maior parte da vida conjugal. Todas elas em algum momento da vida se angustiaram com essa situação. Todas deixaram escapar de alguma forma algum lamento. Lamentos explícitos ou em forma de exigência para que o marido as fecundasse ou fecundasse alguma escrava para que elas adotassem o filho.
 É possível imaginar as dores que sentiam uma época em que ser mãe era a principal (ou talvez a única) função da mulher.
A fêmea que não procriava era inútil. Essa era a lição que a natureza lhes transmitia. Ao verem a procriação sendo valorizada sentiam mais intensamente a “síndrome do útero vazio”.  O sentido da existência lhes escapava e a angústia que sentiam pela esterilidade é difícil de avaliar. Alguns maridos sofreram com elas (Abraão) outros se impacientaram (Isaque e Jacó) e  alguns, como Elcana,  não as entenderam. A “síndrome do útero vazio” trazia-lhes desespero e desejo de morte. A humanidade lhes foi ingrata ao compara-las com as demais fêmeas. Extrair lições práticas da natureza nem sempre faz bem à vida,  nem sempre é sábio.
Para completar a sua angústia, a ausência de filhos era tomada como sinônimo de maldição divina ou capricho dos deuses. Não tenho dúvidas de que o mundo já foi pior para as mães.
Viajando um pouco mais no tempo procuro imaginar o que era ser mãe nos dias Jesus.
Aliás, os homens nunca valorizam o produto do ventre feminino. Cobrava-lhes produção, mas não valorizavam os filhos. Tratava-os com grosseria. Impacientavam-se com eles e, muitas vezes, culpavam a mães pela inquietação dos filhos e pela não “moldagem” deles ao era esperado pelo pai.
 No tempo de Jesus algumas mães tiveram o privilégio de encontrar alguém que valorizou o fruto do seu útero. Consta nos evangelhos que Jesus certo dia, ao ser rodeado por mães,  tomou as crianças sem seus braços e as abençoou.
Talvez isso tenha acontecido uma única vez, mas o cronista registrou como um dos feitos importantes de Jesus. Talvez ele tenha pensado em enaltecer o seu Mestre, mas eu penso que com esse registro  ele enalteceu as mães. Enalteceu as mães porque trouxe ao mundo uma nova visão sobre maternidade, a visão de que o fruto do ventre de uma mulher é um ser humano e deve ser valorizado, respeitado. Cada sorriso que damos a uma criança valorizamos a mãe que a gerou. Cada afago, cada elogio, cada oportunidade que damos a uma criança é uma apologia à maternidade. Afagar uma criança é como acariciar a mãe que a gerou.
Valorizar um filho, promover legitimamente um filho é o melhor elogio que se pode oferecer a uma mãe.
Até recentemente, pela alta mortalidade infantil, era como se toda mulher tivesse um punhal cravado no útero. A “maldição” da morte lhes acompanhava e o pesadelo do útero esvaziado se fazia sempre presente.
Em nossos dias as perspectivas  são outras. Mulheres não precisam ser mães para serem respeitadas, e as que são mães recebem (pelo menos um pouco) do tratamento que merecem. As políticas públicas em favor das mães ainda precisam melhorar, mas a sua presença mostra que a mãe começou a viver em outro tempo.
Apesar dos avanços científicos e sociais que trouxeram uma nova luz, para toda mulher que deseja ser mãe, há uma lamentável sombra no seu caminho: as drogas. As drogas ceifam-lhes o prazer da maternidade quando a mãe já deveria começar a colher os bons frutos da sua fertilidade. Eis a sombra que nosso século trouxe às mães.
Creio ser desnecessário deixar aqui um apelo para que nos unamos no combate a esse flagelo social que faz sangrar o coração de muita mulher que sonhou em ter um útero benfazejo.
Mãe, só você pode entender o mistério que circunda a sua vida.
Parabéns pelo seu dia.
Antonio Sales       profesales@hotmail.com
Nova Andradina, 11 de maio de 2013.

domingo, 5 de maio de 2013

AINDA MATAMOS OS PROFETAS?



Jesus certo dia pressionado pelos escribas e fariseus disse-lhes que eles eram culpados pela morte dos profetas que tanto veneravam. Eram filhos daqueles que mataram os profetas (Mt 23:29-31).
Na história do povo israelita os profetas não eram bem vindos embora as gerações futuras redessem homenagem a esses corajosos que se levantaram para defender a justiça. Jesus disse que alguns foram mortos no altar, inclusive. Altar era o lugar de proteção da vida. Quando alguém se sentisse ameaçado fugia para o templo e se colocava ao lado do altar, agarrado a ele, e era protegido pelos sacerdotes. A lei levítica previa isso.
Alguns profetas foram mortos no altar. Por quê? Quem eram os profetas?
Profetas eram vozes discordantes, vozes que soavam alertando do engano em que as pessoas se encontravam, vozes que denunciavam a hipocrisia em que liderança vivia,  eram pessoas que condenavam a duplicidade no viver, que denunciavam as injustiças sociais e a exploração da ignorância do povo. Os profetas que falavam em nome de Deus condenavam os líderes da nação porque mantinham o povo sob pressão psicológica, opressão econômica e opressão política.
Profetas eram vozes que condenavam o isolamento em relação aos problemas sociais, que se posicionavam contra aqueles que viviam como se os problemas sociais não lhes diziam respeito.
Denunciavam aqueles que viam o “mundo lá fora” como sinônimo de corrupção e os de dentro como seres purificados, imunes a esses malefícios. Eram contra os que separam as pessoas em duas categorias estáticas: os mundanos e os da igreja.
Essa classificação colocava os judeus (e nos coloca hoje) na posição de julgadores do mundo, classificadores de pessoas e nos impede de ver os próprios erros, de tirar a trave do próprio olho.
Eram  (e ainda são)  denunciados pelos profetas os maldizentes, os produtores de intriga, os adúlteros (qualquer espécie de adultério), todos que se julgam superiores pelo fato de estarem dentro do “redil” mesmo que devorando ovelhas e que tenham a pele da cor da pele do lobo. São denunciados o que têm a pele manchada pelo “sangue” de ingênuos que se deixam seduzir pelos seus discursos e se tornam vítimas de suas ideias estapafúrdias.
Os judeus mataram aqueles que denunciavam os que confiavam no templo, numa prática mecânica da religião, e ignoravam as necessidades humanas (Jr 7:4-6).  Rejeitaram aqueles que lhes dizia que a sua religião os estava conduzindo ao abismo, ao obscurantismo, à intolerância. Rejeitaram aqueles que procuravam lhes mostrar que estavam sendo enganados pelos seus líderes, seduzidos por discursos fabricados com intenções de amedrontá-los. Mataram os que lhes diziam que estavam sem crescimento moral e espiritual porque eram mal conduzidos.
Hoje não somos diferentes. Ainda matamos profetas. Se não lhes derramamos o sangue, porque as leis não permitem, provocamos lágrimas copiosas. Causamos-lhes desespero ao verem a nossa estupidez e nossa falta de vontade de abrir os olhos. Matar nem sempre significa tirar a vida; pode significar também amordaçar, desprezar, fazer pouco das suas palavras.
Todos aqueles que procuram abrir os nossos olhos, apontar para o verde que está fora do redil do falso pastor, são excomungados por nós. Preferimos quem nos engane, que nos faça crer que estamos no caminho certo. Preferimos quem nos humilhe aos que nos alertam.
Campo Grande, 01 de maio de 2013.
Antonio Sales     profesales@hotmail.com

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A VIDA CRISTÃ SEGUNDO PEDRO



Pedro, em sua segunda carta à igreja primitiva procurou incentivar a vida cristã em sua plenitude (2Pe 1:5-7). Para ele viver é mais do seu estar vivo. Viver é crescer.
 Por essa razão ele descreve os  degraus que devem ser escalados rumo a essa plenitude cristã.
 Primeiramente é necessário ter fé. Paulo já havia dito isso em sua carta aos Hebreus. "Sem fé", disse ele, " é impossível agradar a Deus, porque  é necessário que aquele  que se aproxima Dele creia que Ele existe e se torna galardoador dos que O buscam" (Hb 11:6).
Parafraseando diríamos que para viver a vida  cristã é preciso acreditar que vale a pena investir nesse estilo de vida. É esse o papel da fé:  fornecer a razão  e dar a motivação necessária para o cultivo da vida cristã. É preciso crer que haja recompensa futura ou imediata para justificar um estilo de vida tão particular.
O crescimento  é doloroso porque representa rompimento com o passado, com um estado anterior de acomodação. Existe sim a dor do crescimento, existem os dissabores dos “desajeitos” do processo, existem as consequências do resultado do crescimento.  Para suportar  essa dor é preciso acreditar que vale a pena crescer. Para não temer as consequências da maturidade é preciso acreditar que haverá também ganhos. É o papel da fé.
Podemos pensar também que o cristão procura crescer para servir a Deus com mais propriedade. Nesse caso entra o conceito  Paulino  de fé, crer que Deus existe e é o galardoador dos  o que O servem.
Penso que limitar o crescimento cristão ao conceito de servir a Deus somente, apequena  a vida. Viver de modo cristão é mais do que servir a Deus, é também servir ao próximo, é crescer porque é digno crescer.
Para tudo isso é preciso ter fé. Fé em Deus,  fé na dignidade da vida, fé na dignidade do servir.
Mas Pedro continua dizendo: "acrescentai à vossa fé a virtude".
 O que seria essa virtude?
O Dicionário Eletrônico da Editora do Porto assim define:
“Disposição habitual  para a prática  do bem; probidade; retidão;
Qualidade ou conjunto de boas qualidades morais; excelência moral;
Ação virtuosa; força moral; valentia; valor; coragem; austeridade no viver.”
Fiquemos com a definição de virtude como probidade, retidão, excelência moral, disposição para a pratica  do bem. Quem entende  que vale a pena viver como cristão dedica-se  ao esforço de um viver  de excelência. Esforça-se  à prática de atos de probidade e justiça.
É difícil viver, negociar, trabalhar  com quem não pratica a retidão  ou não possui  excelência moral.
No livro de provérbios (Pv 31) encontramos as características de uma mulher virtuosa. Penso que seria melhor dizermos pessoa virtuosa.
Diz o texto que uma pessoa assim tem valor inestimável porque é digna de confiança. Ela procura  fazer o bem, isto é beneficiar as pessoas que dependem dela. É diligente, cuidadosa, responsável, provê o pão aos seus dependentes e não sossega enquanto não os vê alimentados. Investe no futuro cultivando os valores, cuidando do planeta, das relações familiares e do bem-estar  dos familiares e amigos. Socorre os necessitados, protege os bens da família, anima os cansados, estimula um viver ético e o cumprimento dos deveres.
Mas Pedro continua dizendo que à virtude deve-se acrescentar o conhecimento, a ciência. Virtude, excelência moral, sem ciência é simplismo. Dispõe o sujeito a ser manipulado facilmente, torna-o ingênuo. Há pessoas consideradas boas, mas que na realidade são ingênuas. Bom é aquele que sabe o que faz e por que faz. Excelência moral tem aquele que tem opções e escolhe viver retamente.
A virtude é uma escolha e a escolha pressupõe opções. Opção é privilégio de quem conhece. Quem cumpre os deveres por falta de opção é escravo. Quem faz o bem sem entender o que está fazendo, sem ter consciência das possíveis consequências, é um ingênuo.
Pedro não fala de ingenuidade e não quer que como pessoas eleitas (1Pd 2:9) sejamos ingênuos. Por essa razão ele diz que devemos acrescentar o conhecimento à nossa vida. Tudo que formos fazer deve ser por opção para que tenha valor moral.
Jesus disse que Deus quer adoradores que O adorem em espírito e em verdade ( Jo 4:24), isto é, que as boas práticas sejam conscientes, que o louvor seja sábio e adequado à ocasião, que as palavras não sejam ingenuamente repetidas, que a reverência não seja imposta ou mecânica, que o discurso (sermão) seja interessante e instrutivo, que cada um procure saber o seu lugar e contribua com o seu melhor.
“Portanto, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude o conhecimento”, disse Pedro.


Ele diz que tendo adquirido conhecimento deve-se acrescentar a temperança. O dicionário da Editora Porto define temperança como a “capacidade de moderar o próprio desejos e reações”. É a capacidade de controlar-se. Controlar o apetite e o consumo. Usar adequadamente o tempo, buscar a qualidade de vida e a qualidade nos  relacionamentos. Moderação no trabalho, no uso de refrigerantes e alimentos não recomendados pela ciência.
Uma vez adquirida a temperança, a paciência deve ser buscada. “A capacidade de suportar males, incômodos e dificuldades com tranquilidade”. Não é por acaso que a paciência esteja após a virtude, o conhecimento e a moderação.
Após  a paciência vem a piedade, isto é, a compaixão, o respeito, a disposição para apoiar, perdoar e socorrer.
Tudo isso contribui para o desenvolvimento do amor fraternal, isto é, o amor pelos irmãos e somente depois vem o amor universal.
Antonio Sales  profesales@hotmail.com
Nova Andradina, 11 de abril de 2013.