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sábado, 17 de agosto de 2013

É PRECISO CRER



Todo ser humano nutre expectativas. O professor, ao entrar na sala de aula, tem expectativa de que os seus alunos entenderão e se interessarão pelo que vai apresentar-lhes. Uma mãe ao acariciar o filho no berço sonha com um homem ou mulher brilhante, de viver correto e com sucesso.  Se esse filho traz alguma marca genética, ou congênita, especial os pais esperam que quando crescer a sociedade tenha evoluído cientificamente e socialmente ao ponto de proporcionar-lhe um viver digno, sem padecer preconceito e como todas as condições tecnológicas de que necessita para ter uma vida de acordo com os parâmetros da normalidade ou do que é  comum a todas as pessoas.
Essas pessoas creem, têm fé. É essa crença, esse acreditar, que alimenta a esperança e justiça os esforços.
Quando um professor deixa de acreditar que os alunos se interessarão pelo que tem a dizer, perde a vontade de trabalhar e começa a contagem regressiva para a aposentadoria ou para a saída do magistério.
Quando um cônjuge de acreditar que o relacionamento será bem sucesso, deixa de fazer investimentos nele. Começa se autoproteger e investir em si mesmo. Muitos jovens, quando deixam de acreditar que serão aceitos pela família, que terão sucesso na escola ou em alguma carreira, começam a escalada descendente rumo às drogas.
Acreditar é um ato de autoproteção, por isso é necessário.
O apóstolo Paulo partilha dessa ideia ao afirmar que sem fé, é impossível agradar-lhe [a Deus]; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam”( Hb 11:6).
Se um professor vai à escola sema creditar que os alunos têm interesse em aprender acabará desmotivando–os ainda mais. A sua incredulidade estará estampada no rosto  e, de alguma forma, se afetará a todos.  Da mesma forma, se vamos a Deus em busca de algum auxílio não acreditando que tal fato possa ocorrer ou Deus existe e pode conceder o que busca é muito provável que não alcance o que pede. Essa é a mensagem de Paulo.
 Jesus quando desceu do Monte da Transfiguração encontrou no sopé do mesmo um pai aflito com um filho que tinha um sério problema de epilepsia, surdez e mudez. Se dúvida um problema muito sério ainda hoje que já superamos boa parte dos nossos preconceitos, imaginemos naquele tempo. Cuidar de uma pessoa com essas particularidades deve ser um trabalho nada simples.
O homem aproximou-se de Jesus pedindo que tivesse compaixão
do seu filho e que o curasse (Mc 9:14-29).  E Jesus disse-lhe: Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê. E, logo, o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! ajuda a minha incredulidade.  
 O pai do menino acreditava. Sabemos disso não só pela sua declaração, mas pela sua ação. Se não acreditasse na possibilidade de cura não teria se dado ao trabalho de procurar Jesus. Se não acreditasse que sua família poderia viver melhor não teria se dado ao trabalho de insistir mais uma vez.
Crer é necessário para que mantenhamos viva a chama da esperança.
Antono Sales      profesales@hotmail.com
Nova Andradina, 17 der agosto de 2013.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

QUANDO A PORTA BATE NA SUA CARA



“Bater a cara na porta” é uma expressão popular que indica ter errado o alvo, ter falado com a pessoa errada ou na hora imprópria. Não ter conseguido o desejado.
Receber a “porta na cara” significa não ser atendido, não ser ouvido, ser maltratado, ser ignorado.
O patriarca Jó, personagem bíblico conhecido por ter enfrentado um profundo golpe maligno, tinha a impressão de que Deus lhe batera a porta na cara.
Enquanto os seus amigos procuram em alguns momentos consola-lo e em outros, culpa-lo pelo acontecido, Jó apelava frequentemente para que Deus se manifestasse e lhe dissesse o que estava acontecendo. Ele queria saber o significado de tudo aquilo, porque lhe sobreviera tamanho mal, se ele agia com justiça.
O curioso é que Deus em nenhum momento respondeu as perguntas de Jó.
Permaneceu a maior parte do tempo em silêncio e quando falou discorreu sobre coisas secundárias ao problema de Jó. Tudo que ele disse foi para dar a entender que Jó não entendia de nada.
Ele bateu a porta na cara de Jó.
Outra pessoa expressiva que sentiu o vento vazio da porta vindo em sua direção foi C.S. Lewis, escritor inglês. Quando sua esposa morreu de câncer ele sentiu-se desamparado e clamou a Deus por uma explicação. Depois ele escreveu que um das situações mais inquietantes é que Deus guarda silêncio quando você mais precisa Dele.
Jesus clamou “Deus, meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mt 27:46) e Deus não lhe respondeu uma única palavra sequer. Por ter clamado pela explicação divina Jesus foi zombado (Mt 27:47) e mesmo assim Deus guardou silêncio.
Deus bateu a porta na Sua cara também.
Jó clamou “por que Te escondes?” (Jó 13: 24) e Jesus clamou “por que me desamparastes”. Ambos ficaram sem resposta.
Um amigo meu depois de perder um irmão em um trágico acidente confessou: "se há algum propósito nisso eu não consigo ver. Se Deus tinha intenção de me ajudar eu não entendi até agora como posso ser ajudado pela morte do meu irmão".
Questões que nos intrigam. Questões sem respostas. Questões sobre as quais Deus silencia.
Em um momento profundamente angustiante da minha vida clamei a Deus por socorro e aguardei um tempo. Por ter ouvido um silêncio atordoador como resposta, por ter sentido o vento da porta vindo minha direção, desabafei com Ele: "vou agir do meu modo. Se der errado, por favor, não venha me condenar". Quando confessei isso para alguém a pessoa confessou que não entendia o meu modo de tratar com Deus.
Gostaria de entender melhor as pessoas que dizem ter ouvido a voz de Deus.  Gostaria de saber o que fizeram para que Ele os ouvisse e respondesse. Comigo Ele sempre guardou silêncio.
Não duvido da Sua existência e nem do Seu amor, mas não entendo o Seu modo de tratar comigo e com tanto outros. Não entendo o Seu silêncio quando mais necessito Dele ou quando gostaria de ouvir a Sua opinião.
Mas, Ele já falou, dirá alguém. Já falou pelos profetas, retrucam todos com os quais desabafo as minhas inquietações.
Minha questão é: e se os profetas não disseram tudo? E se alguma coisa do que falaram se perdeu? E se minha questão não foi respondida por nenhum profeta?
O mundo mudou tanto, não é verdade? As circunstâncias mudaram tanto, não é mesmo? As circunstâncias atuais podem requerer o mesmo comportamento ético ou moral, mas exigir uma resposta técnica, cientifica, social, política ou teológica diferente.
Onde está Deus quando bato na Sua porta? Por que Ele se esconde quando clamo? Por que guarda silêncio quando solicito orientação?
Por que não Se mostra quando um adversário, supostamente, antiético se manifesta ou me interpela? Por que não diz de que lado está a verdade?
Talvez Ele queira que eu aprenda a dialogar, que aprenda a conviver com as diferenças. Mas, tem gente insuportável pela indiferença evidente, pela ironia estampada no rosto ou pela grosseria!  Até com esses tenho que dialogar?
Talvez Ele queira que eu aprenda a ser tolerante. Tenho que tolerar até os indiferentes e os exploradores da ignorância ou da fragilidade do outro?  Qual a linha divisória entre a tolerância e a permissividade?
Tantas questões, nenhuma resposta divina.
Você, leitor, já teve experiência semelhante? Já questionou a Deus e não obteve resposta ou você é mais privilegiado do que Jó?
Diante dessa aparente indiferença divina, como entender Jesus quando Ele disse que Deus é solícito e dá coisas boas aos Seus filhos antes que peçam? (Mt 7: 7-11)
Antonio Sales         profesales@hotmail.com
Dourados, 02 de agosto de 2013

sábado, 27 de julho de 2013

O FORMALISMO RELIGIOSO E SEUS EFEITOS DANOSOS



Nas ciências o formalismo é inevitável. Todo produto de pesquisa que não for sistematizado fica carente de validade. O conhecimento científico deve ser apresentado  na forma prevista pelas normas, deve ser institucionalizado, portanto, formal.
Mas o formalismo tem também o seu aspecto negativo. Se uma pessoa tentar começar uma pesquisa pela forma sistemática pode correr o risco de não começar. O começo nunca é totalmente formal; ele parte de incertezas, do aparente caos, de questões que intrigam pela falta de respostas. Os passos iniciais da pesquisa são titubeantes e, embora, tenhamos hipóteses ou objetivos traçados os dados não são dados (o trocadilho é pertinente), são construídos pelo pesquisador. As informações não estão organizadas, os objetos não estão em ordem e os sujeitos nem sempre falam o que o pesquisador esperava ouvir. Enfim, os dados estão imersos em um mundo de informações e, frequentemente, dispersos nas diversas fontes. Os dados não se mostram, quase sempre estão ocultos e somente o olhar atento do pesquisador pode desvelá-los e dar-lhes identidade.
Não se começa uma pesquisa pela forma, mas pela falta de forma. Pesquisa-se para dar forma.
Uma critica que Morris Kline fez ao Movimnento da Matemãtica Moderna foi exatamente com relação ao excesso de formalismo como ponto de partida.
Fazer ciência é tentar descobrir a possível ordem presente num aparente caos. Ou buscar origem da ordem pela sua decomposição em busca do caos que a originou.
Querer começar de forma excessivamente ordenada pode inibir o trabalho.
Quando se trata de religião o formalismo é mais perigoso ainda, mas o formalismo mais perigoso não é aquele da rotina das coisas, do culto rotineiro. É aquele do cerceamento do pensamento. Perigoso é o formalismo que engessa as pessoas e inibe a produção de ideias novas.
 Muitas igrejas tradicionais vêm convivendo com certo grau de apatia por parte dos seus membros. Chamam isso de mornidão, numa alusão ao estado laodiceano (Ap 3).  As pessoas estão indo à igreja mais por costume do que por entusiasmo ou comprometimento.  
Normalmente os membros são condenados por essa situação em que se encontram como se fosse por escolha própria que perderam o entusiasmo. Perda de entusiasmo é doença. Perda de entusiasmo é ausência de prazer. E, nesse caso, a ausência do prazer é resultado de carência de sentido no que faz ou na fé que professa.
 Meu pressuposto é que a ausência de prazer em ir à igreja pode estar ligada ao dogmatismo que impede a livre manifestação do pensamento. Tem relação direta com o formalismo exacerbado, não da ordem do culto, mas na doutrinação, nas exigências impostas e não esclarecidas, na prática de castração do pensamento, na esterilização das ideias, na repetição do discurso, na preocupação com a aparência sem alimentar o interior.
A ausência de prazer decorre da intimidação, do monopólio da “verdade” por parte da liderança, do medo de expor o que se pensa. O prazer fugiu porque o culto é um monólogo, um suposto ato de falar em nome de deus. Os discursos são proferidos em nome de um deus que desconhece as necessidades humanas, que despreza o intelecto, que zomba da nossa inteligência, que se alimenta de preconceito contra tudo que se passa ao nosso redor, que despreza as potencialidades dos jovens e que procura intimidar para não perder a causa.
Em muitos discursos (pretensamente inspirados) vê-se claramente a “inspiração” de um deus mentecapto.
Nessas igrejas o culto, ao invés de ser provocativo, é imposto, não deixa espaço para participação, é inquestionável, portanto, tem efeito mortífero.
Participo do pensamento de Finley (2013) quando afirma que “O ritual religioso tem pouco poder para transformar vidas. O formalismo religioso torna as pessoas espiritualmente estéreis. Sozinha, doutrina não transforma corações. O poder do testemunho do Novo Testamento estava enraizado na autenticidade de vidas transformadas pelo evangelho. Os discípulos não estavam encenando. Eles não estavam apenas cumprindo formalidades. Não tinham uma forma de espiritualidade artificial. O encontro com o Cristo vivo os havia transformado e eles não podiam ficar em silêncio”.
A quietude dos membros e o absenteísmo quase generalizado proveem do vazio proporcionado pela própria igreja. 

Perda de prazer é doença e doença não se cura com acusação, com “xingamentos”, com deboche ou com desprezo. Ausência de prazer se cura com ações afirmativas. 
Antonio Sales   profesales@hotmail.com
Nova Andradina, 27 de julho de 2013.

Fonte da Citação
FINLEY, Mark. Testemunho e serviço: o fruto do reavivamento. In: Reavivamento e Reforma. Lição da Escola Sabatina de Adultos de 23/07/2013. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013.