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sábado, 5 de julho de 2014

O PAI DO PRÓDIGO



Nossa sociedade é patriarcal. Há passos em direção a um realinhamento, um equilíbrio de forças entre homem e mulher na administração da família, mas, até o momento, há uma predominância de ênfase no sistema patriarcal.
Nesse caso, a palavra pai está carregada de certos simbolismos como: firmeza, proteção, bom exemplo, provisão, entre outros que fazem referência à coragem, trabalho, gerenciamento, equilíbrio, etc. Por outro lado, amor, carinho, cuidado, estão ligados à figura da mãe, como se fossem virtudes que não exigem coragem, atitude, etc.
Penso que é mais difícil amar do que prover, é mais difícil ser carinhoso do que disciplinador, que é preciso mais coragem para estar ao lado do filho em momentos difíceis (depressão, rebeldia, doença, etc.) do que trabalhar e providenciar sustento. É nesse contexto que desejo falar sobre o pai do jovem pródigo de que fala a Bíblia (Lc 15).
O jovem não suportando a pressão do irmão mais velho, não tolerando mais a sua intromissão em seus planos pessoais, desejando por um fim no abuso de autoridade e querendo distância da hipocrisia que reinava na fazenda, onde o seu irmão mais velho era tido como o herói, resolveu partir.
Ele supôs que longe da ingerência do irmão seria mais fácil administrar os seus bens. Partindo desse pressuposto ele pediu a sua parte na herança e saiu. Associou-se a amigos pouco confiáveis e enveredou pelo caminho da ruína. Suponho que não tenha gastado todo o seu dinheiro com farras, embora, essa possa ter consumido parte do sua herança. Penso que o fracasso foi a falta de habilidade em negociar, a inexperiência no mundo dos negócios.
Ainda hoje há muitos que se aventuram por esse campo de trabalho e voltam de mãos vazias. Há uma cilada em cada profissão que dificulta a vida dos que não têm preparo para exercê-la. Toda profissão tem suas entranhas amargas, seus riscos.
Mas, e o seu pai onde entra nessa história toda?
Dizem os pregadores, ao analisar essa parábola, que o pai ficou olhando o filho partir e aguardando ansioso pela sua volta. Suponho que faz algum sentido essa visão do pai e que foi essa a intenção de Jesus ao narrar essa história: falar do amor de Deus. Porém, que olhar era esse? Que despedida foi aquela?
Foi uma despedida cheia de graça, onde um pai com muito amor para dar ao filho olhava-o desejando sucesso em sua empreitada e certo de que um dia  voltaria rico para juntos comemorarem a aventura? Foi um olhar de esperança, de doçura, de orgulho em ver o filho partir para iniciar a sua própria carreira?
Foi uma despedida amarga, onde o pai com o coração ferido desejava que o filho “quebrasse a cara” o mais breve possível para poder “lançar-lhe” em rosto os conselhos não seguidos? Foi um olhar de amargura, faiscante de ódio, que lançava maldição a cada passo do filho?
Será que o filho teve coragem de acenar para o pai alguma vez? Será que se recusou em olhar para trás temendo encontrar as faíscas do olhar do pai? Será que não olhou para trás por sentir que estava traindo a confiança do progenitor e não queria se arriscar a magoá-lo? Será que olhou e, ao se deparar com uma expressão de bondade no olhar do pai ou com um carinhoso aceno de mão, teve vontade de voltar? O que aconteceu não sabemos porque não sabemos o clima da despedida, não sabemos a intensidade  do abraço que recebeu ao sair.
Será que foi uma despedida regada a esperança, repleta de tolerância, de apoio, de sábios conselhos ou regada a amargura, desilusão, maldições não expressas, desejo de não se verem mais?
Não conhecendo o contexto familiar fica difícil definir a partida, mas é possível conjecturar que o pai não olhava todos os dias para ver se o filho voltaria. Esse procedimento indicaria uma aposta no fracasso do jovem, uma maldição velada lançada sobre ele. Quem está bem demora voltar, embora, mande recados sempre. Volta logo quem vem em busca de socorro e suponho que o pai não queria isso. Suponho que o pai sonhava que o filho voltaria com uma caravana de camelos e servos para trazer boas notícias, anunciar o seu casamento, falar da compra de uma nova fazenda, etc.
O olhar do pai para estrada não era em busca de um maltrapilho, mas de reconhecimento e controle da situação. Como administrador precisava ter um olhar atento ao que se passava ao redor.
O ver o filho maltrapilho o surpreendeu, mas, ao mesmo, tempo o comoveu e aqui está a chave para entender o momento da despedida. Um olhar de rancor na despedida não o teria preparado para acolher o jovem com um abraço. Um olhar diário para a estrada, desesperado de que o filho voltasse e ansioso de que chegasse mendigando, não o teria preparado para perdoar sem antes dizer palavras de reprovação.
Ele deve ter dito: “eu não esperava isso, mas não estranho que tenha acontecido porque a vida nos prega peças. Seja bem vindo, filho, a sua experiência vai torná-lo mais útil à nossa fazendo que fora antes”.
Este é o pai que imagino e que, suponho,  estava no pensamento de Jesus.
Antonio Sales
Campo Grande, 05 de julho de 2014.






terça-feira, 24 de junho de 2014

UMA LIÇÃO QUE NÃO SE DEVE APRENDER



Hoje ouvi de um pregador evangélico uma história cujo objetivo era ensinar uma lição de perseverança e valor moral aos jovens.
Disse o palestrante que uma menina sonhava em ser bailarina no teatro de Moscou que, segundo ele, é um dos mais importantes do mundo. Durante anos ela acalentou o sonho e treinou arduamente. Quando chegou a idade certa ela procurou o diretor do referido teatro para se candidatar e ser submetida ao teste de admissão. Após o teste ouviu um retumbante "não" do diretor. Segundo a avaliação do diretor ela não tinha habilidade e por isso estava dispensada. 
Voltando para casa ela amargou a decepção por vinte longos anos, levando uma vida de frustração e sensação de fracasso.
Após esse tempo ela tomou coragem e foi assistir a um espetáculo no teatro. E, lá chegando, encontrou o mesmo diretor coordenando a peça e, tomando coragem, resolveu abordá-lo para falar da sua frustração e saber porque agiu daquela forma com ela. A resposta não foi a que esperava e nem foi melhor do que o primeiro não. A resposta foi: "falo não para todas as candidatas que me procuram pela primeira vez. Somente aquelas que insistem ouvem o sim e nunca antes da quarta vez".
O objetivo da estória, com já foi dito, era estimular os jovens a nunca desistirem, mas, por outro lado, e no meu entender, é um estímulo à estupidez no trato com o ser humano. Não basta perseverar, lutar para conseguir, insistir até à quarta ou quinta vez, é preciso aprender outras lições. Por exemplo:
1.      Deve-se tratar com delicadeza o ser humano. Não se pode destruir as esperanças dos que são frágeis. É preciso cuidado para "não esmagar a cana quebrada" como nos diz os evangelhos e nem "apagar o pavio que fumega"(Mt 12:20). Isso significa que não se deve desestimular os que necessitam de estímulo para prosseguir. Não se deve abortar de forma tão brutal as expectativas de alguém.
A lição subjacente a essa história é: lute incansavelmente por alcançar o que deseja e, uma vez alcançado o seu objetivo, trate os outros com crueldade. Perpetue e propague a violência com que foi tratado. Quanta estupidez numa única estória!
2. Deve-se pensar se vale a pena insistir tanto sem ter um mínimo de esperança de que seja aceito um dia. Essa perseverança diante da "escuridão" requer o desenvolvimento da inteligência intrapessoal de que falou Goleman, o estudioso das inteligências múltiplas. Mas, requer algo mais do que essa espécie de inteligência como veremos a seguir.
Quando se tem um tempo limitado, deve-se ainda insistir no incerto?
Se o sonho que alguém cultiva é algo que extrapola o pessoal e que pode ser deixado à posteridade como, por exemplo, a restauração da democracia de um país, uma melhoria na qualidade na educação, etc., é uma coisa. A perseverança, nesses casos, se justifica mesmo diante de muitos obstáculos e da pouca expectativa de que seja alcançado durante a vida de uma pessoa. Por outro lado, se o sonho é algo pessoal e há idade limitada para usufruí-lo, essa ideia de perseverança deve ser revista. Pensemos, por exemplo, no caso de um jovem que deseja fazer carreira como jogador de futebol. Sabe-se que há um tempo limitado para isso e que são exigidas certas habilidades corporais que somente alguns jovens possuem. Imagine um jovem recebendo um não de dois ou três treinadores seguidos! Não será um aviso de que deve procurar outra carreira? Além disso, sabe-se que quanto mais tempo ele permanecer fora dos treinos, e quanto mais velho ficar, menores serão as suas chances. A perseverança se justifica nesses casos?
3.      Não se pode considerar a vida como algo tão simples de modo que um conjunto de regras de certo e errado deem conta de resolver. As regras de faça isto ou aquilo funcionam bem para crianças e animais domésticos. Portanto, simplesmente dizer para o jovem que deve perseverar a qualquer custo pode não ser um bom conselho. Se o barco está indo a pique  o melhor que se pode fazer e saltar dele.
Por vezes me pergunto: porque alguns pregadores, que são parâmetros para os jovens, são tão insensatos em seus conselhos? Por que insistem em conselhos que não são muito aplicáveis? 
Penso que uma das razões é que, normalmente, Deus não ouve as nossas orações com a frequência com que gostaríamos. Acontece algo mais ainda. Acontece que Deus não se dá nem mesmo ao trabalho de justificar a Sua atitude, o Seu absenteísmo e os pregadores insistem em afirmar que Deus sempre ouve. Para não ficarem sem crédito arrumam alguns subterfúgios, para explicar essa ausência de Deus, que parece não convencer muita gente. Como alternativa para não desiludir muitos membros, pregam a perseverança a qualquer custo. Nessa tentativa de defender a Deus ferem o princípio do respeito ao ser humano, esmagam a vara que já está quebrada e apagam os últimos sinais de fumaça do tição que insiste em manter acesa a chama da fé.
Procuram, com esses conselhos, sempre culpar o ser humano, isto é, o indivíduo, pelos insucessos quando é sabido que há múltiplos fatores que contribuem para o insucesso .de alguém, inclusive os caprichos injustificáveis de um treinador ou a estupidez de um diretor de teatro.
Antonio Sales
Nova Andradina, 31 de maio de 2014.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O NOVO MANDAMENTO

O apóstolo Paulo escrevendo aos gálatas (Gl 6:2) os orienta a praticarem a ajuda mútua como um requisito para o cumprimento da “lei de Cristo”.
Em outra oportunidade ele escreveu aos coríntios falando da sua experiência na pregação do evangelho. Ele diz que se fez como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivera debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei; para os que estão sem lei, como se estivera sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei” (1Co 9:21).
O termo “lei de Cristo” traz  certo constrangimento aos legalistas. Dizem eles que é a mesma lei de Deus (os Dez Mandamentos) temendo que se for aceita a possibilidade de que haja outra lei, a lei de Cristo, as pessoas irão abandonar os Dez Mandamentos. Paulo não teme essa possibilidade e diz abertamente que os judeus que se apegaram aos Dez Mandamentos estavam debaixo da lei, estavam sob o jugo, eram escravos.
De fato. A lei dos Dez Mandamentos, sem diminuir a sua importância, é a lei da escravidão, é a lei que se aplica ao perverso, ao lascivo, ao moralmente fraco,  ao que age de forma correta somente quando vigiado ou ameaçado por alguma lei que o proíba de seguir os instintos animalescos. Dizer a um homem minimamente civilizado e em plano domínio das suas faculdades morais que ele não deve matar, não deve insultar, não deve extorquir, não deve explorar sexualmente, é insultá-lo. Essas recomendações se aplicam ao ignorante, ao estúpido, ao desprovido de bom senso.
Um cristão de verdade não pode estar submisso a essa lei do “não”. Cristo o estimulou a superar a justiça farisaica (Mt 5:20) e agir de forma moralmente livre, constrangido apenas pela atuação da graça divina em sua vida.
É nesse sentido que Paulo fala em “lei de Cristo”. Disse que estava “debaixo da lei de Cristo”, isto é, seguindo o “novo mandamento” (Jo 13: 34) deixado por Jesus.
Esse novo mandamento não é uma extensão do velho e tampouco é uma figura de linguagem. Jesus não estava brincando de “faz de conta” ao pronunciar essa frase: “um novo mandamento vos dou”. Ele falava de um novo mandamento que deve reger o novo homem que foi afetado pela graça.
Ele disse: “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15),  “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor”(Jo 15:10) e ao dizer isso não estava se referindo aos Dez Mandamentos e nem dizendo que eram mandamento de amor. Os Dez Mandamentos são ordens majoritariamente negativas, mas são ordens. São oito decretos proibitivos e dois afirmativos, mas são decretos, e amar não se decreta. Ser misericordioso não se consegue por decreto. Ser moralmente justo, ser bondoso e ser cortês são atributos humanos que não podem resultar de um decreto, mas  de uma transformação de vida.
Era disso que Jesus estava falando. Era sobre vidas transformadas que Ele e Paulo discursavam.
No entender deles um cristão que precisa ser lembrado que não deve matar, adulterar, mentir, etc., não é cristão. Cristão é aquele que tendo superado essa fase de necessitar ser vigiado avança na prática de uma  vida solidária e respeitosa. Para esses o novo mandamento. Um mandamento que não contém cláusulas proibitivas, mas apenas orientações sobre como agir para que o relacionamento humano seja mais saudável possível.
 O novo mandamento é um apelo aos sentimentos de solidariedade, é a  liberdade para agir em favor do outro, é o gosto apurado pelo que é bom, é a graça norteando a vida.
O novo mandamento é: deixe a graça te guiar.
Antonio Sales
Nova Andradina, 30 de maio de 2014.


sábado, 10 de maio de 2014

OS LIMITES DE DEUS

           Escrevi recentemente sobre esse tema. Falei dos problemas com nota fiscal e com localização que teríamos se Ele resolvesse presentear-me com um carro ou um terreno. Percebi que alguns leitores  ficaram incomodados. Compreendo  perfeitamente essa reação porque aprendemos que nada se pode dizer sobre Deus que lance alguma dúvida sobre o Seu poder ou qualquer um dos Seus atributos. Causa-nos desconforto pensar em um Deus que tenha limitações.
Em respeito a esses leitores sensíveis retomo a conversa com ilustrações que suponho esclareça o meu ponto de vista.
Começo ilustrando com o caso de um pai hipotético. Trata-se de um homem que pratica halterofilismo e já acumula algumas vitórias em campeonatos. Ao nascer  o seu filho, com tamanho normal entre três e  quatro quilogramas , é uma criança pequena e extremante frágil para  o potencial muscular do pai. Ninguém duvida que esse halterofilista tenha potencial para brincar com a criança jogando-a para cima um ou dois metros e depois apara-la.
 No entanto, por se tratar de uma pessoa equilibrada e pai amoroso é fácil supor que isso nem sequer lhe passará pela cabeça. O mal que a brincadeira causará à criança inibe prontamente a ação do pai ainda que ele seja desafiado por algum oponente.
Dizemos então que o halterofilista tem potencial muscular para isso, mas que como ser humano e, especialmente, como pai  ele jamais o fará. Sua limitação não é muscular, é moral, é sentimental. Sua limitação é imposta pela fragilidade da criança.
É dessa forma que imagino Deus. Ele tem potencial para fazer o que desejar, mas tem limitações morais tendo em vista a fragilidade humana. Suas limitações  são as limitações da felicidade humana.
Se o que lhe é pedido for benéfico ao ser humano, mas lhe trouxedificuldades de outra ordem  com as que levantei  no texto anterior,  Ele,  certamente,  estará limitado em Suas ações.
Antonio Sales
Campo Grande,  9 de maio de 2014

sábado, 3 de maio de 2014

AS LIMITAÇÕES DE DEUS



Como cristãos somos orientados a pensar em Deus como Aquele que pode todas as coisas, um Ser para o qual não há obstáculos. Teoricamente parece que devemos pensar mesmo assim, pois, do contrário, Ele seria um Deus impotente, um Deus despreparado para as emergências surgidas na gestão do universo.  Na prática, porém,  parece que temos problemas com essa crença. Dizendo em outras palavras: Deus tem potencial para resolver todos os problemas, porém, tem limitações para transformar esse potencial em ato.
Parece estranho afirmar que o “Deus Potência” é um e o “Deus Atuante” é outro, mas creio que essa é a realidade. É sobre essa  dicotomia que discorrerei a seguir através de questões para o leitor pensar.
Meu neto havia pedido, como presente de aniversário de 7 anos, uma motocicleta aos pais e recebeu a resposta  de que o valor da mesma estava além das posses da família embora se tratasse, evidentemente, de uma motocicleta infantil. Embora a família morasse numa região de fronteira onde esses produtos podem ser comprados por um preço menor ele ainda ficaria um pouco acima das posses.
Naquele final de semana, como de costume, ele foi à igreja  onde as professoras lhe contaram histórias infantis  de intervenções divinas  na vida humana e de respostas às orações. Não sei exatamente o que lhe disseram embora estivesse de visita à sua casa, mas sei o que ele entendeu: Deus atende a todas as orações.
Na volta para casa avisou os pais de que no dia seguinte teria a sua sonhada motocicleta uma vez que orara a Deus e este lhe traria, naquela noite, o seu presente. Minha filha ficou perplexa. Como lidaria com a frustração do filho em relação a Deus, à oração, etc. quando no dia seguinte não recebesse a sua motocicleta? Que explicação lhe daria?
Queria que o pai, com a sua experiência de sexagenário, salvasse a ela e ao filho dessa frustração trazendo uma explicação plausível para o absenteísmo da divindade.
O pai percebeu que o problema não era o neto que, provavelmente, no dia seguinte já tivesse se envolvido com outra coisa e se esquecido do presente. O problema era a filha. A sua fé estava vacilante e ela precisava de apoio e recebeu o apoio.
A conversa foi muito produtiva e girou em torno do que Deus pode efetivamente realizar, ou melhor, do que Ele não pode fazer mesmo que nós partamos do pressuposto de que Ele seja todo-poderoso.
Começamos a nossa conversa de modo bem informal. Pensamos na hipótese de, como adultos, pedirmos um carro novo de presente para Deus. Partimos do pressuposto de que realmente estivéssemos necessitados e que Ele estivesse interessado em nos atender.
Nossa primeira pergunta foi: de qual concessionária Ele roubaria o carro para nos entregar? Ele, à noite, imprimiria uma nota fiscal em nome de qual emitente para que pudéssemos legalizar o carro no DETRAN? Se imprimisse a nota em nome Dele, como emitente, o DETRAN aceitaria?  Quem pagaria os impostos para o governo? Como essa concessionária contabilizaria o carro desaparecido?
Partindo do pressuposto menos traumático de que Ele não precisasse roubar o carro, e que Ele mesmo o “fabricasse”  com apenas a frase “haja um carro”, o problema da nota fiscal permaneceria.  Como justificaríamos perante  os órgãos fiscalizadores que o carro apareceu  em nossa casa? Quem acreditaria nessa história e o regularizaria  sem antes proceder a uma investigação que demoraria anos e nos daria muita “dor de cabeça”? Esse carro teria peças de reposição ou nunca estragaria, seria eterno?  Se tivesse peças de reposição, de qual marca seria? Se Ele optasse por uma marca e tudo desse certo, no que diz respeito à regularização, Ele seria garoto propaganda da referida marca.  Nesse caso, estaria sendo justo para com os outros fabricantes?
O problema ficou ainda mais complexo  quando conjecturamos a possibilidade de solicitarmos um terreno, ainda que pequeno, para construímos uma casa para alguém muito necessitado.  Supondo ainda que, por ser uma necessidade real e uma causa nobre, Ele se prontificasse em nos conceder o pedido.  As perguntas que surgiram em seguida foram: de quem tomaria o terreno? Como o terreno seria regularizado? Se Ele optasse por criar um terreno novo onde o situaria  de modo que ainda fosse útil para a pessoa necessitada? O terreno não poderia ficar suspenso no ar, ainda que Deus tenha potencial para fazer isso, pois, como a pessoa teria acesso a ele?
 Vamos supor que Ele optasse pela forma mais simples, isto é, nos dar o dinheiro para comprar  terreno. Esse dinheiro chegaria às nossas mãos através de um envelope que cairia em nossa caixa de correio, porém, em moeda de qual país?  Em moeda do Brasil, diríamos, mas de qual banco sairia esse dinheiro?  Ele nos mandaria em moedas falsas fabricadas na casa da moeda do céu?
Aparentemente este é o problema mais simples de resolver.  Ele poderia nos mandar o valor em  metal precioso. Como não entendo de compra e venda de pedras ou metais preciosos suponho que aí estaria o caminho menos complexo para resolver o impasse. No entanto, a produto teria que vir em quantidades pequenas de modo que não levantasse suspeita ou não implicasse uma prestação de contas à Receita Federal. Talvez devêssemos formar um grupo para que o valor fosse particionado de modo a não despertar suspeita sobre a sua origem. Com explicaríamos a origem do  produto?
Como podemos ver nada é tão simples, nem mesmo para Deus. Uma cura é mais simples porque não implica em prestação de contas, impostos, legalização, etc. A ressurreição já trará problemas se ocorrer após o registro do óbito. Como provar para o judiciário que o médico não errou no atestado, que a morte não foi uma simulação para receber seguros e que o morto realmente está vivo?
Mesmo diante da complexidade levantada penso que contribui para que pensemos melhor no que pedimos a Deus e também que sejamos capazes de entender porque Ele nem sempre responde.
Fica ainda pergunta: Deus realmente pode tudo? Em quais circunstâncias?
Antonio Sales
Nova Andradina, 27 de abril  de 2014.

domingo, 27 de abril de 2014

ALMAS SALVAS E MENTES CATIVAS

 As igrejas estão ávidas, investem recursos humanos e financeiros, para ganhar almas. Muitos programas televisivos têm essa finalidade, muitos sermões destacam a necessidade da membresia conduzir almas a Cristo e muitos pastores se dizem comissionados por Deus para esse trabalho.
A ceifa de que falou Jesus aos discípulos, após conversar com a mulher Samaritana ((Jo 4:35), significa para essa liderança de mente fechada apenas conduzir pessoas ao batismo. E batizar é apenas fazer prosélitos, engrossar as fileiras da igreja e, por extensão, “salvar almas”. Na realidade, o “salvar almas”, muitas vezes, aparece no discurso apenas para mascarar a verdadeira intenção que é aumentar o número de membros e garantir a manutenção financeira do trabalho. Existe interesse político e financeiro em jogo, embora muitas igrejas não saibam usar esse poder. Algumas fazem "bom" uso dele, mas muitas, não. Muitas são como o boi "amansado" que desconhece o poder que tem. Ele trabalha arduamente sob o jugo em troca de mais trabalho e, muitas vezes, nem do açougue é protegido. Muitas igreja procedem dessa forma porque nem sequer se mobilizam para influenciar na política preparando os seus membros  para essa empreitada.
O que me preocupa é que as igrejas que se dizem preocupadas em salvas almas, nada fazem para salvas as mentes dos seus membros. "Salvam" a alma e aprisionam a mente. Aprisionam a mente porque direcionam a leitura a um único gênero, "censuram" com adjetivos depreciadores outras fontes de informação, limitam a liberdade de expressão dos que ousam pensar fora dos parâmetros estipulados pela instituição e consideram que a única atividade digna de um cristão é dedicar-se a “ganhar almas”.
As artes são desestimuladas porque, segundo eles, são expressões de um pensamento mundano, secular, incrédulo. O artista, por ser livre, incomoda e o seu trabalho é recebido com adjetivos depreciadores. O estudo da filosofia é visto como perigoso e há certo endeusamento da área da saúde como forma de dizer que o corpo vale mais do que a mente; que a saúde física, isto é, a ausência de dor é preferível aos conflitos existenciais que se instalam na mente do estudioso de outras áreas. Corpo são e mente cativa eis a receita para formar um bom boi de carga, puxador de arados e carretas.
Dessa forma, não há estímulo ao crescimento intelectual, isto é, não há preocupação com a salvação da mente. O tornar-se pessoa não é estimulado, apenas o tornar-se ovelha. A submissão à orientação externa é estimulada e a capacidade de orientar-se fica prejudicada.
Não há estímulo aos relacionamentos humanos onde a amizade é o foco principal e o respeito ao outro onde as suas ideias, seu modo de ser, estão presentes. Preferem o heterônomo ao autônomo, o cativo ao livre. “Salvam” a alma e aprisionam a mente.
Antonio Sales
Campo Grande, 06 de abril de 2014


domingo, 13 de abril de 2014

O JOVEM RICO: UMA LIÇÃO A SER APRENDIDA

O relato sintético dos evangelhos nem sempre permite vislumbrar o contexto onde os diálogos e os milagres aconteceram. Alguns relatos são interpretados sob diversas perspectivas e é numa delas que faço a leitura do relato do encontro de Jesus com o Jovem Rico ( Mt  19:16-22)
O texto discorre sobre o encontro de Jesus com um jovem que herdou ou construiu uma grande fortuna e estava incomodado com alguma coisa relacionada com essa fortuna ou com a forma como se relacionava com ela. Não sabemos ao certo o que lhe incomodava, mas podemos conjecturar. Levanto aqui algumas hipóteses:
Primeira hipótese: a riqueza foi obtida ilicitamente, por ele ou por seu genitor, e ver o sofrimento ao redor o incomodava. Conviver com as pessoas prejudicadas por ele lhe trazia incômodo;
Segunda hipótese: a riqueza era legítima, mas as pessoas o olhavam como tendo explorado. Olhavam-no como sendo dono de uma riqueza que não lhe pertencia e sabemos que, por vezes, boatos incomodam tanto quanto os fatos. Ele precisa de algum apoio de alguém e foi buscar em Jesus, o Mestre Popular.
Terceira hipótese: a riqueza era legítima e não havia boatos, mas havia o incomodo de não ter sido ele o produtor dos bens. Há pessoas que se incomodam com fato de herdar uma fortuna e não saber o que fazer com elas.
De qualquer forma ele necessitava de aprovação interior e exterior. Era uma pessoa sensível às opiniões e buscava convencer-se de que tudo o que possuía era legítimo. Precisava sentir que tudo estava bem com ele. Para conseguir isso ele mergulhou de corpo e alma no cumprimento dos preceitos religiosos, seguindo rigorosamente o ritual que lhe era recomendado. No entanto, como era de esperar, o ritual religioso em si mesmo é vazio. Ele não preenche o vazio de nenhuma alma aflita. 
O jovem permaneceu inseguro e buscou a aprovação de Jesus. O medo de perder a vida eterna, isto é, de que a falta de aprovação humana resulta em perda de vida eterna, e até mesmo do prazer de viver esta vida, levou-o a procurar essa aprovação por parte do Mestre que reunia multidões. Ao perguntar sobre o que devia fazer para ser bom, isto é, para herdar a vida plena, ele queria, na realidade, saber o que fazer para sentir-se bem, para ser aceito. Ele queria ouvir alguém dizendo que estava bem.
Jesus ironizou mandando-o fazer o que já fazia. O mestre sabia que a recomendação de guardar os mandamentos não supriria o que faltava ao jovem e queria apenas que ele confessasse a insuficiência do legalismo. Queria ouvi-lo dizer que o ritual não produzia resultados. Outros precisavam saber disso e precisavam ouvir da boca de quem experimentou o fracasso do ritual religioso para suprir as necessidades humanas.
Esse episódio faz lembrar a anedota de um palhaço que fazia a todos sorrir, mas era profundamente triste. Ao procurar um terapeuta, que nada sabia a seu respeito, este o recomendou que assistisse a um espetáculo de tal palhaço e desfrutasse de boas gargalhadas provocadas por ele. O sujeito, ao ouvir a recomendação, entristeceu-se mais ainda e disse: “a sua recomendação indica que o meu caso é sem esperança porque aquele palhaço sou eu”.
Quando Jesus recomendou ao jovem que guardasse os mandamentos este pensou: não resolve porque isso eu já tenho feito sem resultados. Jesus usou então uma metáfora ao recomendar que vendesse todos os bens  e desse aos pobres. A mensagem do mestre foi: despoje-se de todas as ideias preconcebidas, abandone o apego ao legalismo, desça do pedestal de uma pessoa que quer ser apreciada por todos e assuma a vida que eu levo. O problema do jovem não era a riqueza, era como ele se sentia.
A vida de Jesus era sem pretensão de aprovação por parte dos homens, sem apego ao cumprimento da lei como forma de agradar a quem quer que seja, desprovida de apego a elogios, bajulações ou qualquer coisa que equivalha. 
Essa é a grande lição a ser aprendida: viva de modo correto sem esperar aprovação de quem quer que seja. 
Antonio Sales

Nova Andradina, 22 de fevereiro de 2014.