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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ORAR PELA PAZ



Hoje, enquanto trabalhava, ouvia um programa televisivo. Não sei o nome do
Programa e também não me preocupei em identificar a emissora. Ouvia um grupo de religiosos conversando com jovens e falando sobre a paz. Um deles disse que o líder deles havia recomendado que rezassem pela paz do mundo.
Enquanto me perguntava se a guerra e a opressão se resolvem com oração ele explicou que não estava falando das guerras, mas da paz interior. Nova pergunta brotou em minha mente: como resolver o problema da falta de paz interior dos outros pela oração?
Vou tentar resolver as minhas questões. Se não entendi o que ele disse vou, pelo menos, tentar explicar o que me inquietou em cada momento da sua fala.
Embora a palavra guerra já traz em si o potencial de me causar calafrios e torcer para eliminada do vocabulário humano, tenho que admitir que ela, por vezes, é necessária. Hanah Arendt, uma respeitada socióloga, afirmou que uma guerra nem sempre é declarada com o desejo de matar ou de oprimir, mas de conter uma opressão ou fazer cessar uma matança. Pode ser um tratamento de choque em um opressor que vem provocando prejuízos incalculáveis em uma população. Uma rebeldia pode ser necessária para deter a marcha de um ditador cruel. Muitas vidas podem ser ceifadas para que outros, que vierem depois tenham paz. Sei que é triste pensar assim, sei que nos causa mal-estar essa condição humana, mas sei também que isso já é suficiente para nos convencer que a oração não tem poder de fazer cessar as guerras.
Se pudesse fazer cessar a guerra, poderia ter evitado que a guerra fosse desencadeada ou se tornasse necessária .  Para fazer cessar uma guerra é preciso fazer algo mais do que orar, rezar, implorar. Na realidade, nem sei dizer tudo o que deve ser feito nesses casos, mas sei que orar é pouco demais. Orar é delegar a Deus o que nos cabe fazer. Pode nos levar a cruzar os braços e deixar que o outro sofra enquanto dormimos de consciência tranquila. É certo que não podemos resolver os problemas do mundo, mas podemos criar consciência nos que sofrem e motivá-los a lutar pelos seus direitos.
E sobre a paz interior? Como é conseguida?
A paz interior é resultado do perdão, da liberdade interior, da infusão da graça na sua vida. Não se tem paz sentindo culpa por não ter conseguido ajudar o outro, por não ter acertado nas tentativas de fazer o bem ou por não ter conseguido evangelizar. Por outro lado, a paz dos braços cruzados pode anestesiar a consciência moral, amordaçar a voz dos que poderiam clamar em favor do outro.
Quando a paz interior provém da liberdade, do alívio do sentimento de culpa, da consciência do dever cumprido, da aceitação das próprias limitações, então a pessoa faz mais do que orar. Ela faz o que o meu amigo Genival Mota faz: cria o projeto de vida para ajudar jovens a construir o seu próprio currículo. Faz como o professor Marcos: cria o projeto sonhar para tirar jovens o mundo das drogas. Faz como o meu amigo Arnaldo Rodrigues e outros que coordenam os grupos de amor exigente.
Orar é bom é deve e ser cultivado, mas é pouco.
Antonio Sales                              profesales@ hotmail.com
Nova Andradina, 18 de agosto de 2014.

domingo, 17 de agosto de 2014

O QUANTO DEUS ME AMA?

A dupla de cantores evangélicos tradicionais entoava o hino: “oh!, se soubesses o quanto te  ama, o buscarias com fervor [...] ”. A música ouvida há décadas ainda soa em meus ouvidos. A beleza da melodia e a harmonia das vozes estão gravadas em minha memória auditiva.
Ainda este ano fui a uma igreja neopentecostal acompanhando parentes. Fui como observador, aprendiz e parente. O tema da noite foi oportuno. O pregador  tomou por base a cura de um paralítico (Mc 2:1-12) e a certa altura pronunciou a frase “quanto o Senhor me ama”. Lembrei-me da música e comecei a pensar: quanto o Senhor me ama? É possível dimensionar e avaliar o amor de Deus por mim?
 Quando paro para pensar na dimensão do amor de Deus por mim tenho dificuldades para extrapolar as minhas necessidades e valor próprio. Quando pergunto a mim mesmo “quanto Deus me ama?” posso responder conforme o meu valor próprio:
me ama muito, me ama pouco ou não me ama. Se penso que é impossível alguém me amar, penso que Ele não me ama ou ama pouco. Se minha autoestima está baixa, sinto-me desprezado por Ele, indigno do Seu amor. Sinto a finitude do Seu amor muito próxima.
O jovem desprovido de autoestima chegou ao CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) de uma cidade para ser socializado por mau comportamento. Foi direto ao ponto: “meu pai me abandonou quando eu era pequeno. Minha mãe me colocou num abrigo e lá me chamavam desdenhosamente de preto. Sou um sujeito não amável, ninguém me quer, sou desprezível”.
Imagino que se um dos técnicos do CREAS tivesse se arriscado a aconselhá-lo a busca uma igreja ele teria dito: “para que quê? Deus não me ama!”.
Penso que é assim que funciona. Quando estou com a autoestima baixa então penso: “Deus não me ama. Ninguém ama alguém sem valor como eu”.
Por outro lado se estou bem, sinto-me digno do Seu amor e proclamo a magnitude infinita da Sua capacidade de amar. Uma pessoa com autoestima boa sente-se valorizado pelos familiares e, consequentemente, amado por Deus.
Quando tenho boa autoestima, mas estou passando por momentos difíceis de ordem externa sinto que tenho valor próprio, mas com necessidades. Nesse caso, o Seu amor tem a dimensão das minhas necessidades e respondo: “Ele me ama tanto quanto eu necessito de amor”.
Em momentos assim vejo Nele o ressuscitador de sonhos, Aquele que me tira para fora do sepulcro que me detém por muitos dias no torpor da morte. Se não quero sair então Ele me mantém no sepulcro.
 Para que sair? Pergunto. Tenho algo a oferecer, minha ressurreição trará benefícios a quem?
Naquela noite o pregador afirmou também que quando alguém quer ou necessita ele se submete a qualquer tipo de desconforto (Mc 2:1-12), acredita no que lhe dizem, aceita as propostas, cumpre as ordens. Foi o caso de paralítico. Ele tinha amor-próprio e acreditou que o pregador itinerante se incomodaria com ele. Apesar de doente ele tinha autoestima boa.
Há momentos na vida que nos tornamos iguais aos ídolos (Sl 115: 8) que têm olhos, mas não veem. Por vezes necessitamos ser carregados (Mc 2), que alguém   dê  voltas e busque subterfúgios para nos trazer de volta. Quando estamos carregados de pensamentos de derrota, nos tornamos surdos aos apelos do amor e cegos às suas manifestações.
É possível ver a nossa fé, em Deus  e em nós mesmos, pelas atitudes, é possível saber o quanto aceitamos o amor de Deus pelo nosso discurso a respeito de nós mesmos, disse o pregador.
Nesse dia também aprendi que o religioso deixa o doente, doente e o pecador com seus pecados porque ele quer que as pessoas fiquem perto dele, não quer as pessoas livres. Jesus disse ao paralítico perdoados estão os  seus pecados e vai ( não fique para que não se contamine com os outros).
Tenho percebido que muitas igrejas procuram fazer com os membros se sintam sempre culpados como forma de mantê-los prisioneiros do sistema. A liberdade intelectual e a ausência de culpa dos adeptos não estão nos seus planos.  
Antonio Sales                                profesales@hotmail.com
Araranguá -SC,  julho de 2014.

 


domingo, 10 de agosto de 2014

CRER EM JESUS

No livro dos atos dos apóstolos (At 16:9-31) encontramos o relato de Paulo e Silas na prisão em Filipos. Naquela noite, mesmo estando prisioneiros e com os pés no tronco, resolveram cantar. Resolveram mostrar que eram superiores ao que se passava e proclamar as virtudes do Cristo ressurreto, isto é, a superioridade da vida cristã conforme preconizada pelo próprio Jesus. Uma vida que sobrepujava, em qualidade moral, àquela vivida pelos não-cristãos do seu tempo e contexto geográfico. Acreditavam que o evangelho tinha poder transformador e atuava no caráter das pessoas de modo a torná-las mais sóbrias, mais prudentes, tolerantes, respeitosas e conscientes da sua condição.
Naquela noite eles cantaram. Cantaram esses valores com tanto entusiasmo que o céu se moveu em favor deles. Receberam apoio do alto para solidificar a divulgação das qualidades morais que defendiam. Houve um terremoto e eles foram soltos. O mais importante, porém,  é que também o carcereiro foi libertado. Naquela noite ele creu em Jesus. 
Mas o que significa crer em Jesus?
Penso que crer significa primeiramente confiar no que Ele disse. Confiar que os Seus ensinamentos são aplicáveis à vida. Essa confiança abrirá a nossa mente para aceitar o Sua projeto de humanidade. Esse projeto inclui a não separação da vida em compartimentos separados como fazemos hoje. Separamos a vida espiritual da vida material. Uma é vivida na igreja e a outra no trabalho, na família, nos esportes e na escola. A vida espiritual é celestial, voltada para um futuro distante ou post-mortem (como se a vida fosse um projeto futuro, irrealizável agora) e a vida material que é a vida aqui e agora. A vida, nessa perspectiva, consiste num projeto de felicidade adiado, uma perene irrealização, um constante adiar das perspectivas.
A vida espiritual insiste na harmonia com a divindade, no sonho de uma transformação do presente estado de coisas ( falta de educação, mau caráter, uso de drogas) num passe de mágica, sem esforço próprio. A vida material consiste numa vida de pesares, sem realizações, sem chances de felicidade, um constante contratempo contra o qual não vale a pena lutar.
Dessa forma o cristão moderno passa a vida esperando viver e destinado a falhar porque adia as realizações. Esse viver dicotômico nos limita e infelicita porque vivemos uma contradição constante: amamos o mundo com as suas oportunidades, mas precisamos odiá-lo por ser o oposto de Deus; desfrutamos a vida, mas não podemos sentir prazer para não perder o interesse pelas coisas eternas; apreciamos ter amigos e estar com eles, mas não podemos nos apegar para que nos afastem das coisas celestiais.
Essa dicotomia não estava prevista no evangelho pregado por Paulo e Silas. Para eles as vidas espiritual e material se misturavam, estavam imbricadas de modo que o cristão viveria aqui e agora realizando, sonhando e novamente realizando, sendo feliz e buscando mais felicidade, amando e investindo no amor.
Como cidadão deveremos viver defendendo a praticando os valores morais defendidos na igreja e participar da igreja praticando a tolerância que aprendemos nos relacionamentos fora dela.
Antonio Sales           profesales@hotmail.com

Dourados, 10 de agosto de 2014.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O VAZIO INTELECTUAL


Recentemente uma leitora cobrou-me que produzisse mais textos. Fez a cobrança exatamente em um momento em que eu estava realmente produzindo pouco. Há momentos da vida em que nos sentimos vazios de ideias. Há, inclusive, alguns desses momentos que são mais do que simples momentos, são dias e semanas.
A fadiga laboral é uma causa desse vazio. Quando múltiplas tarefas precisam ser executadas em um curto espaço de tempo algumas ficam sem fazer. Não é verdade que sempre ficam para depois as tarefas menos importantes. Por vezes, são as que exigem mais de nós que deixamos para depois.
Outra possível causa é falta de ideias geradoras. Essas ideias surgem no contato humano, vendo a sua dor, ouvindo o seu clamor (mesmo que silencioso), perscrutando as suas perspectivas, tentando adivinhar o seu vazio e ouvindo os seus conselhos. Nos seus conselhos o homem expressa a sua filosofia de vida, sua visão de mundo e, por vezes, o vazio das suas ideias ou a ausência de compromisso com o futuro ou bem-estar do outro.
Quando estamos sobrecarregados de tarefas e com prazos exíguos perdemos o contato com o outro. Ser absorvido pelo trabalho não é saudável embora, muitas vezes, seja inevitável. Ser absorvido pelo trabalho causa o vazio intelectual, provoca pobreza de ideias geradoras e empobrece a produção.
Mas o trabalho também não é a única causa de fadiga ou de pobreza intelectual. O medo de se expor e a falta de reflexão sobre o sentido da existência igualmente empobrecem. Conviver com pessoas que exigem muito da gente e contribuem pouco ou nos valoriza pouco também estressa e produz estagnação intelectual. Os egoístas nos enfadam, os que exigem muita atenção nos sobrecarregam, os que lançam culpa sobre nós, ou nos amedrontam com estórias de teor supostamente moral, abafam as nossas ideias geradoras.
Gosto de conversar com gente livre, com pessoas livres-pensadoras, porque elas provocam, estimulam a reflexão.
Gosto dos evangelhos porque Jesus não era um prisioneiro de ideias pré-fabricadas, não era conduzido por crenças, não aceitava ficar repetindo o que disseram. Ele sentia-se livre para discordar, para fazer novas proposições, para desafiar os homens e a si mesmo. Gosto de Paulo por ele ser livre. Libertou-se do judaísmo e não se escravizou pelo cristianismo dos gálatas (Gl 1:8-10) ou pela fragilidade ideológica de Pedro (Gl 2:11). Suas cartas mostram a fertilidade das suas ideias e a sua liberdade para expressá-las.
Gosto de escrever na esperança de que meus textos provoquem ideias, estimulem a busca pela superação do medo intelectual e se tornem produtores de reflexão. É por essa razão que me angustio quando caio em um "buraco" intelectual porque perco o contato com os meus leitores. Fico em dívida para com eles.
Certo dia encontrei uma colega no pátio de universidade. Ela fazia o seu doutorado em linguística e se aproximou de mim perguntando: "você já se sentiu alguma vez sem ideias?” Em seguida explicou: estou em crise porque preciso terminar a minha tese e parece que minha cabeça ficou vazia, você já se sentiu assim?".
Já, respondi-lhe. Também já passei meses sem produzir nada, sentindo-me como um árido deserto no campo das ideias. Mas, tenha animo colega, porque a "chuva" cairá nesse deserto novamente você voltará a produzir novamente. A fertilidade voltará, garanti-lhe. Ela me agradeceu e saiu. Poucos dias depois me procurou toda feliz para dizer que estava fértil novamente.
É sempre uma alegria quando nos tornamos férteis, quando as ideias fluem.


Antonio Sales

Entre Nova Andradina e Dourados, 28 de julho de 2014.



sábado, 5 de julho de 2014

O PAI DO PRÓDIGO



Nossa sociedade é patriarcal. Há passos em direção a um realinhamento, um equilíbrio de forças entre homem e mulher na administração da família, mas, até o momento, há uma predominância de ênfase no sistema patriarcal.
Nesse caso, a palavra pai está carregada de certos simbolismos como: firmeza, proteção, bom exemplo, provisão, entre outros que fazem referência à coragem, trabalho, gerenciamento, equilíbrio, etc. Por outro lado, amor, carinho, cuidado, estão ligados à figura da mãe, como se fossem virtudes que não exigem coragem, atitude, etc.
Penso que é mais difícil amar do que prover, é mais difícil ser carinhoso do que disciplinador, que é preciso mais coragem para estar ao lado do filho em momentos difíceis (depressão, rebeldia, doença, etc.) do que trabalhar e providenciar sustento. É nesse contexto que desejo falar sobre o pai do jovem pródigo de que fala a Bíblia (Lc 15).
O jovem não suportando a pressão do irmão mais velho, não tolerando mais a sua intromissão em seus planos pessoais, desejando por um fim no abuso de autoridade e querendo distância da hipocrisia que reinava na fazenda, onde o seu irmão mais velho era tido como o herói, resolveu partir.
Ele supôs que longe da ingerência do irmão seria mais fácil administrar os seus bens. Partindo desse pressuposto ele pediu a sua parte na herança e saiu. Associou-se a amigos pouco confiáveis e enveredou pelo caminho da ruína. Suponho que não tenha gastado todo o seu dinheiro com farras, embora, essa possa ter consumido parte do sua herança. Penso que o fracasso foi a falta de habilidade em negociar, a inexperiência no mundo dos negócios.
Ainda hoje há muitos que se aventuram por esse campo de trabalho e voltam de mãos vazias. Há uma cilada em cada profissão que dificulta a vida dos que não têm preparo para exercê-la. Toda profissão tem suas entranhas amargas, seus riscos.
Mas, e o seu pai onde entra nessa história toda?
Dizem os pregadores, ao analisar essa parábola, que o pai ficou olhando o filho partir e aguardando ansioso pela sua volta. Suponho que faz algum sentido essa visão do pai e que foi essa a intenção de Jesus ao narrar essa história: falar do amor de Deus. Porém, que olhar era esse? Que despedida foi aquela?
Foi uma despedida cheia de graça, onde um pai com muito amor para dar ao filho olhava-o desejando sucesso em sua empreitada e certo de que um dia  voltaria rico para juntos comemorarem a aventura? Foi um olhar de esperança, de doçura, de orgulho em ver o filho partir para iniciar a sua própria carreira?
Foi uma despedida amarga, onde o pai com o coração ferido desejava que o filho “quebrasse a cara” o mais breve possível para poder “lançar-lhe” em rosto os conselhos não seguidos? Foi um olhar de amargura, faiscante de ódio, que lançava maldição a cada passo do filho?
Será que o filho teve coragem de acenar para o pai alguma vez? Será que se recusou em olhar para trás temendo encontrar as faíscas do olhar do pai? Será que não olhou para trás por sentir que estava traindo a confiança do progenitor e não queria se arriscar a magoá-lo? Será que olhou e, ao se deparar com uma expressão de bondade no olhar do pai ou com um carinhoso aceno de mão, teve vontade de voltar? O que aconteceu não sabemos porque não sabemos o clima da despedida, não sabemos a intensidade  do abraço que recebeu ao sair.
Será que foi uma despedida regada a esperança, repleta de tolerância, de apoio, de sábios conselhos ou regada a amargura, desilusão, maldições não expressas, desejo de não se verem mais?
Não conhecendo o contexto familiar fica difícil definir a partida, mas é possível conjecturar que o pai não olhava todos os dias para ver se o filho voltaria. Esse procedimento indicaria uma aposta no fracasso do jovem, uma maldição velada lançada sobre ele. Quem está bem demora voltar, embora, mande recados sempre. Volta logo quem vem em busca de socorro e suponho que o pai não queria isso. Suponho que o pai sonhava que o filho voltaria com uma caravana de camelos e servos para trazer boas notícias, anunciar o seu casamento, falar da compra de uma nova fazenda, etc.
O olhar do pai para estrada não era em busca de um maltrapilho, mas de reconhecimento e controle da situação. Como administrador precisava ter um olhar atento ao que se passava ao redor.
O ver o filho maltrapilho o surpreendeu, mas, ao mesmo, tempo o comoveu e aqui está a chave para entender o momento da despedida. Um olhar de rancor na despedida não o teria preparado para acolher o jovem com um abraço. Um olhar diário para a estrada, desesperado de que o filho voltasse e ansioso de que chegasse mendigando, não o teria preparado para perdoar sem antes dizer palavras de reprovação.
Ele deve ter dito: “eu não esperava isso, mas não estranho que tenha acontecido porque a vida nos prega peças. Seja bem vindo, filho, a sua experiência vai torná-lo mais útil à nossa fazendo que fora antes”.
Este é o pai que imagino e que, suponho,  estava no pensamento de Jesus.
Antonio Sales
Campo Grande, 05 de julho de 2014.






terça-feira, 24 de junho de 2014

UMA LIÇÃO QUE NÃO SE DEVE APRENDER



Hoje ouvi de um pregador evangélico uma história cujo objetivo era ensinar uma lição de perseverança e valor moral aos jovens.
Disse o palestrante que uma menina sonhava em ser bailarina no teatro de Moscou que, segundo ele, é um dos mais importantes do mundo. Durante anos ela acalentou o sonho e treinou arduamente. Quando chegou a idade certa ela procurou o diretor do referido teatro para se candidatar e ser submetida ao teste de admissão. Após o teste ouviu um retumbante "não" do diretor. Segundo a avaliação do diretor ela não tinha habilidade e por isso estava dispensada. 
Voltando para casa ela amargou a decepção por vinte longos anos, levando uma vida de frustração e sensação de fracasso.
Após esse tempo ela tomou coragem e foi assistir a um espetáculo no teatro. E, lá chegando, encontrou o mesmo diretor coordenando a peça e, tomando coragem, resolveu abordá-lo para falar da sua frustração e saber porque agiu daquela forma com ela. A resposta não foi a que esperava e nem foi melhor do que o primeiro não. A resposta foi: "falo não para todas as candidatas que me procuram pela primeira vez. Somente aquelas que insistem ouvem o sim e nunca antes da quarta vez".
O objetivo da estória, com já foi dito, era estimular os jovens a nunca desistirem, mas, por outro lado, e no meu entender, é um estímulo à estupidez no trato com o ser humano. Não basta perseverar, lutar para conseguir, insistir até à quarta ou quinta vez, é preciso aprender outras lições. Por exemplo:
1.      Deve-se tratar com delicadeza o ser humano. Não se pode destruir as esperanças dos que são frágeis. É preciso cuidado para "não esmagar a cana quebrada" como nos diz os evangelhos e nem "apagar o pavio que fumega"(Mt 12:20). Isso significa que não se deve desestimular os que necessitam de estímulo para prosseguir. Não se deve abortar de forma tão brutal as expectativas de alguém.
A lição subjacente a essa história é: lute incansavelmente por alcançar o que deseja e, uma vez alcançado o seu objetivo, trate os outros com crueldade. Perpetue e propague a violência com que foi tratado. Quanta estupidez numa única estória!
2. Deve-se pensar se vale a pena insistir tanto sem ter um mínimo de esperança de que seja aceito um dia. Essa perseverança diante da "escuridão" requer o desenvolvimento da inteligência intrapessoal de que falou Goleman, o estudioso das inteligências múltiplas. Mas, requer algo mais do que essa espécie de inteligência como veremos a seguir.
Quando se tem um tempo limitado, deve-se ainda insistir no incerto?
Se o sonho que alguém cultiva é algo que extrapola o pessoal e que pode ser deixado à posteridade como, por exemplo, a restauração da democracia de um país, uma melhoria na qualidade na educação, etc., é uma coisa. A perseverança, nesses casos, se justifica mesmo diante de muitos obstáculos e da pouca expectativa de que seja alcançado durante a vida de uma pessoa. Por outro lado, se o sonho é algo pessoal e há idade limitada para usufruí-lo, essa ideia de perseverança deve ser revista. Pensemos, por exemplo, no caso de um jovem que deseja fazer carreira como jogador de futebol. Sabe-se que há um tempo limitado para isso e que são exigidas certas habilidades corporais que somente alguns jovens possuem. Imagine um jovem recebendo um não de dois ou três treinadores seguidos! Não será um aviso de que deve procurar outra carreira? Além disso, sabe-se que quanto mais tempo ele permanecer fora dos treinos, e quanto mais velho ficar, menores serão as suas chances. A perseverança se justifica nesses casos?
3.      Não se pode considerar a vida como algo tão simples de modo que um conjunto de regras de certo e errado deem conta de resolver. As regras de faça isto ou aquilo funcionam bem para crianças e animais domésticos. Portanto, simplesmente dizer para o jovem que deve perseverar a qualquer custo pode não ser um bom conselho. Se o barco está indo a pique  o melhor que se pode fazer e saltar dele.
Por vezes me pergunto: porque alguns pregadores, que são parâmetros para os jovens, são tão insensatos em seus conselhos? Por que insistem em conselhos que não são muito aplicáveis? 
Penso que uma das razões é que, normalmente, Deus não ouve as nossas orações com a frequência com que gostaríamos. Acontece algo mais ainda. Acontece que Deus não se dá nem mesmo ao trabalho de justificar a Sua atitude, o Seu absenteísmo e os pregadores insistem em afirmar que Deus sempre ouve. Para não ficarem sem crédito arrumam alguns subterfúgios, para explicar essa ausência de Deus, que parece não convencer muita gente. Como alternativa para não desiludir muitos membros, pregam a perseverança a qualquer custo. Nessa tentativa de defender a Deus ferem o princípio do respeito ao ser humano, esmagam a vara que já está quebrada e apagam os últimos sinais de fumaça do tição que insiste em manter acesa a chama da fé.
Procuram, com esses conselhos, sempre culpar o ser humano, isto é, o indivíduo, pelos insucessos quando é sabido que há múltiplos fatores que contribuem para o insucesso .de alguém, inclusive os caprichos injustificáveis de um treinador ou a estupidez de um diretor de teatro.
Antonio Sales
Nova Andradina, 31 de maio de 2014.