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sábado, 1 de junho de 2013

JESUS CRISTO, O MEDIADOR



 O apóstolo Paulo anuncia a Cristo como o único Mediador entre Deus e o homem (1Tm 2:5).
Uma leitura superficial do texto bíblico deixa a impressão de que se trata de um texto de fácil compreensão, de uma expressão óbvia do apóstolo.
Mas, o que faz um mediador? Intermedia conflitos. Se for somente essa a sua função então o apóstolo nos fala de um Deus que tem intriga contra nós, ou está insatisfeito com a nossa performance e disposto a se afastar definitivamente de nós, e Jesus atuando de modo a evitar que saiamos perdendo. Ele acalma a Deus ou nos melhora.
Suponho que não seja esse o pensamento de Paulo porque o apóstolo vê a Deus como misericordioso, disposto a perdoar. Um Deus tolerante diante da fragilidade humana.
Nesse caso, o que seria ser mediador? Qual a atividade de Cristo como Mediador?
Quem me ajudou entender  essa afirmação de Paulo foi Yancey (2004). Quando o escritor citado fala da “Cortina Rasgada” (p. 126) ele traz, indiretamente, à tona a questão da mediação de Cristo.
Para entender Paulo vamos contextualizar, e para isso retomemos a história do povo judeu.
No Monte Sinai, Deus mostrou a Sua força fazendo o monte fumegar e afugentando a todos que se aproximavam dele. No Santuário havia um lugar “Santíssimo” que somente o sacerdote maior (sumo-sacerdote ou sacerdote-chefe) podia entra uma vez por ano depois de um longo preparo pessoal. Nessas circunstâncias Deus estava próximo de alguns e distante de todos. Uzá ao tocar na arca foi “fulminado” porque a ira de Deus se “acendeu” contra ele (embora possamos discordar que tenha corrido exatamente dessa maneira é assim que está registrado em 2Sm 6:7).
Quando olhamos para o Jesus dos Evangelhos encontramo-Lo dizendo: “quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14:9), “vós orareis assim: Pai Nosso” (Mt 6:9), “o Pai está em mim” (Jo 14:10) e Eu e o Pai somos um”( Jo 10:30).
Esse mesmo Jesus abençoou uma mulher “imunda” que tocou em sua veste (Mt 9:21-23) e lhe disse “a tua fé te salvou”, isto é, atua coragem em tocar em Deus foi a sua salvação. Paulo mesmo afirma: Cheguemo-nos, pois, com confiança, ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4:16).
Paulo fala de confiança em Deus, de disposição divina em nos acatar e aceitar o nosso toque. Tudo isso ele aprendeu de Jesus, isto é, Jesus mudou a “cara” de Deus. Ele deu uma nova dimensão ao retrato que os judeus faziam de Deus, fez uma nova interpretação dessa relação. Para não deixar dúvidas, na hora da Sua morte, o “véu do tempo se rasgou”(Mt 27:51), isto é, escancarou o segredo dos judeus sobre Deus. Revelou a face do divino em toda a sua plenitude.
O Deus cultuado pelos judeus era um Deus aprendido “dos gregos que  era  perfeito, atemporal, incorruptível” que jamais conseguiu se aproximar de uma pessoa com desejos sexuais, que, por vezes, cai, sente ódio, cobiça, perde a paciência e tem falta de disciplina. O Deus apresentado por Jesus era santo, mas não intocável; era puro, mas não segregado; era justo, mas não cruel e intolerante; era altíssimo, mas não distante; onisciente, mas não espreitador. O Deus de Jesus aceita ser tocado, aceita aproximação, tolera a imperfeição humana e se empenha por socorrer os que O buscam.
 O papel de Jesus, como mediador, não é implorar misericórdia ao Pai em favor do homem. Não é interceder junto a Deus para que não sejamos punidos, mas interceder junto ao homem para que tenhamos coragem (ousadia) de nos aproximar de Deus.
Dessa forma Jesus foi o mediador não como negociador ou apaziguador, mas como esclarecedor, incentivador da aproximação humana, desvelador de um mistério, recepcionista que abre a porta e dá boas vindas. Isto é, mediador no sentido de nos fazer entender a Deus, de tirar a “máscara” divina colocada pelos homens.
Ele revelou a Deus e essa foi a Sua mediação.

Antonio Sales    profesales@hotmail.com
Nova Andradina, 1º  de junho de 2013.

YANCEY, Philip. Decepcionado com Deus. 11.ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

GRAÇA OU CASTIGO?



Tenho percebido que muitas igrejas estimulam em seus adeptos a crença em um Deus tirano que sempre se afasta deles como forma de castigo; para mostrar insatisfação pelo comportamento dos Seus seguidores. Nessa perspectiva há uma ênfase na maldade humana, na falta de boa vontade deste e no desejo divino de punição. Deus quer mostrar ao homem o Seu poder de controle e o rigor da Sua vigilância. Ele quer destacar a incapacidade humana de agir corretamente ou desejar ser bom. A relação entre o homem e Deus, nessa perspectiva, se estabelece em termos de culpa e castigo, falha e punição.
Penso que uma religião com essas características não é saudável. Não contribui para o crescimento humano porque estimula a timidez, a autodelação e a flagelação moral. A ênfase na impossibilidade ou na inconveniência de um agir com autonomia é  desestimulante do progresso pessoal.
O medo de Deus não produz desejo espontâneo de contribuir com Ele; pode produzir a contribuição servil, mas não a espontaneidade. Não estimula a superação do “espírito” de escravo e não estimula a produção de uma nobreza de  “alma”.
Um ser humano com medo, sem ousadia, carregado de  sentimento culpa, é facilmente controlado por líderes incompetentes ou inescrupulosos.
Penso na nossa relação com Deus de forma diferente. Penso em termos de graça e oportunidade.
Ilustro o meu pensamento com o exemplo de uma mãe e seu bebê. A criança não anda, mas não o faz por culpa dela ou por ter cometido alguma infração de ordem física ou moral. Não anda por uma questão circunstancial, por uma condição própria do ser humano. Não há maldade em seu gesto de  ficar deitada, há apenas uma limitação própria da sua idade.
A mãe, por sua vez, ao colocar a criança no chão, e ao se afastar um pouco,  para que ela role e se arraste pela casa, não está sendo maldosa ou punindo-a por não andar. Está apenas fazendo-lhe um favor, dispensando graça, para que ela cresça saudável e desenvolva os seu potencial. A mãe, ao assim proceder, quer  conduzir a  criança a uma vida de autonomia, portanto, a uma vida saudável em todos os aspectos.
Em minha vida tenho sentido que Deus muitas vezes se afasta. Parece que Ele se esconde por longo tempo, mas não entendo que isso significa que eu tenha errado ou que Ele esteja desgostoso comigo. Sei que, como ser humano, tenho minhas limitações e a necessidade de superá-las. Entendo que para o meu próprio bem, para estimular o meu crescimento pessoal, para me tirar do comodismo  de nada fazer e tudo esperar, para me levar a produzir o que ainda não produzi por acomodação, para ampliar a minha possibilidade de ser feliz ao contemplar as minhas realizações pessoais, Deus precisa se esconder de mim por algum tempo. Tenho percebido que Ele  se esconde, mas não vejo isso como punição; vejo uma manifestação de graça, de bondade e de respeito.
Não me sinto culpado pela Sua ausência, sinto um privilegiado por merecer tamanha confiança no meu potencial.
Deus, no meu entender, não está buscando culpados. Ele está “caçando” talentos. Está apostando em quem consegue a autossuperação, em quem age mais do que ora, em quem consegue se suprir para poder olhar para trás e dizer: “venci”. Deus não quer fracassados ou eternos dependentes. Ele quer ousados e felizes.
 O meu Deus é um Deus centrado na graça e na oportunidade e não um Deus centrado na culpa e no castigo. E o seu?     
 Antonio Sales         profesales@hotmail.com
Nova Andradina, 30 de maio de 2013. (Feriado de Corpus Christi)

sábado, 11 de maio de 2013

SER MÃE ONTEM E HOJE



Nós, do gênero masculino, temos dificuldades para entender os sentimentos de uma mãe. Nunca saberemos o que significa ser mãe, mas podemos imaginar como temos contribuído para que a sua vida seja melhor ou pior, para que a maternidade tenha mais sentido ou menos sentido.
Neste texto tento conjecturar como tem sido a experiência de ser mãe em diversos momentos da história. Tomo por base a história sagrada do cristianismo supondo que muitos, mesmo não cristãos,  tenham alguma informação sobre ela.
Buscando na antiguidade encontro nomes como Sara (esposa de Abraão), Rebeca (esposa de Isaque filho de Abraão), Raquel (esposa de Jacó neto de Abraão) e Ana (conhecida por ser a mãe do profeta Samuel). O que há em comum entre essas mulheres é que foram estéreis a maior parte da vida conjugal. Todas elas em algum momento da vida se angustiaram com essa situação. Todas deixaram escapar de alguma forma algum lamento. Lamentos explícitos ou em forma de exigência para que o marido as fecundasse ou fecundasse alguma escrava para que elas adotassem o filho.
 É possível imaginar as dores que sentiam uma época em que ser mãe era a principal (ou talvez a única) função da mulher.
A fêmea que não procriava era inútil. Essa era a lição que a natureza lhes transmitia. Ao verem a procriação sendo valorizada sentiam mais intensamente a “síndrome do útero vazio”.  O sentido da existência lhes escapava e a angústia que sentiam pela esterilidade é difícil de avaliar. Alguns maridos sofreram com elas (Abraão) outros se impacientaram (Isaque e Jacó) e  alguns, como Elcana,  não as entenderam. A “síndrome do útero vazio” trazia-lhes desespero e desejo de morte. A humanidade lhes foi ingrata ao compara-las com as demais fêmeas. Extrair lições práticas da natureza nem sempre faz bem à vida,  nem sempre é sábio.
Para completar a sua angústia, a ausência de filhos era tomada como sinônimo de maldição divina ou capricho dos deuses. Não tenho dúvidas de que o mundo já foi pior para as mães.
Viajando um pouco mais no tempo procuro imaginar o que era ser mãe nos dias Jesus.
Aliás, os homens nunca valorizam o produto do ventre feminino. Cobrava-lhes produção, mas não valorizavam os filhos. Tratava-os com grosseria. Impacientavam-se com eles e, muitas vezes, culpavam a mães pela inquietação dos filhos e pela não “moldagem” deles ao era esperado pelo pai.
 No tempo de Jesus algumas mães tiveram o privilégio de encontrar alguém que valorizou o fruto do seu útero. Consta nos evangelhos que Jesus certo dia, ao ser rodeado por mães,  tomou as crianças sem seus braços e as abençoou.
Talvez isso tenha acontecido uma única vez, mas o cronista registrou como um dos feitos importantes de Jesus. Talvez ele tenha pensado em enaltecer o seu Mestre, mas eu penso que com esse registro  ele enalteceu as mães. Enalteceu as mães porque trouxe ao mundo uma nova visão sobre maternidade, a visão de que o fruto do ventre de uma mulher é um ser humano e deve ser valorizado, respeitado. Cada sorriso que damos a uma criança valorizamos a mãe que a gerou. Cada afago, cada elogio, cada oportunidade que damos a uma criança é uma apologia à maternidade. Afagar uma criança é como acariciar a mãe que a gerou.
Valorizar um filho, promover legitimamente um filho é o melhor elogio que se pode oferecer a uma mãe.
Até recentemente, pela alta mortalidade infantil, era como se toda mulher tivesse um punhal cravado no útero. A “maldição” da morte lhes acompanhava e o pesadelo do útero esvaziado se fazia sempre presente.
Em nossos dias as perspectivas  são outras. Mulheres não precisam ser mães para serem respeitadas, e as que são mães recebem (pelo menos um pouco) do tratamento que merecem. As políticas públicas em favor das mães ainda precisam melhorar, mas a sua presença mostra que a mãe começou a viver em outro tempo.
Apesar dos avanços científicos e sociais que trouxeram uma nova luz, para toda mulher que deseja ser mãe, há uma lamentável sombra no seu caminho: as drogas. As drogas ceifam-lhes o prazer da maternidade quando a mãe já deveria começar a colher os bons frutos da sua fertilidade. Eis a sombra que nosso século trouxe às mães.
Creio ser desnecessário deixar aqui um apelo para que nos unamos no combate a esse flagelo social que faz sangrar o coração de muita mulher que sonhou em ter um útero benfazejo.
Mãe, só você pode entender o mistério que circunda a sua vida.
Parabéns pelo seu dia.
Antonio Sales       profesales@hotmail.com
Nova Andradina, 11 de maio de 2013.