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sábado, 6 de agosto de 2011

A Regra ou a Exceção?


Antonio Sales
profesales@hotmail.com
Há um ditado popular segundo o qual “toda regra tem exceção”. Verificaremos a validade dessa  afirmação no campo das ciência sociais.
Na Matemática ela é falsa. A matemática, tendo como objeto de estudo e trabalho seres idéias, entes abstratos, criou um “mundo” especial. Nesse mundo os seres relacionam-se perfeitamente. Os “pontos fora da curva” são prontamente excluídos, restando apenas aqueles que se adéquam às normas criadas pelo matemático. Por essa razão um teorema, uma vez demonstrado, é inquestionável. Nesse “mundo” não há mesmo exceção à regra, mas por isso mesmo a Matemática não deve ser tomada como um modelo social. Ela é um modelo de exclusão, inaceitável no relacionamento humano.
A sociedade não pode conviver tranquilamente com a exclusão e por essa razão é de se esperar que as regras sociais tenham exceção. Para incluir é preciso tolerância, paciência, investimento, aposta no outro. E, partindo desse princípio, temos que aprender a conviver com as exceções. Não há perfeição absoluta e nas relações humanas, nem todo “sim” deve permanecer “sim” e nem todo “não” deve ser eterno.
Sempre que uma regra trouxer mais prejuízos do que benefícios é preciso ser repensada e, enquanto isso, quem a administra deve ter bom senso para abrir exceções sempre que precisar. Nisso está a dificuldade em julgar certos procedimentos.
Mentir, por exemplo, nem sempre é errado. Um exemplo hipotético, para ilustrar essa afirmação:
Um navio de pesca legal é bombardeado, por engano, em alto mar. A tripulação é resgatada e os marinheiros decidem levá-la perante as autoridades do país cuja marinha bombardeou o navio. Durante o trajeto e depois da tripulação ter sido maltratada o equívoco é descoberto. Temendo a reação das autoridades diante da imprensa internacional o comandante da marinha propõe ao comandante do navio bombardeado que ele assine uma declaração de que estava fazendo pirataria em águas do outro país e que foram bem tratados durante o trajeto. Se assinar a declaração ele e seus homens ficarão presos e responderão judicialmente pelo crime. Se não assinar todos serão executados e lançados no mar. Os homens olham sulicantes para o seu comandante e ele abaixa a cabeça, toma a caneta e, com mãos trêmulas, assina a declaração. Mentiu.
E você, assinaria a declaração ou permitiria que seus companheiros morressem?
Mentir é sempre errado?
Há exemplos do cotidiano em que a exceção é mais prudente do que fazer o certo (as ambulâncias em serviço não respeitam o sinal de trânsito, por exemplo) e assim a regra de que “errar é sempre errado” tem suas exceções.
Mas uma regra não pode ter mais exceções do que preceitos válidos. Nesse caso, o que deve prevalecer: a regra ou as exceções? Pergunto melhor: se as exceções superam (ou pelo menos igualam) os preceitos da regra, essa regra tem ainda razão de existir? Em casos como esses, deve prevalecer a regra ou as exceções?
Uma ilustração.
Mesmo sabendo que toda ilustração tem suas limitações atrevo-me a apresentar uma. É uma parábola.  
Suponhamos que uma importante estrada tenha uma curva.


De repente alguém cria um espaço de tráfego fora dessa curva e que encurta a distância.

Depois outro espaço ainda é criado.


E assim a estrada fica com mais espaço trafegável fora da curva do que na própria curva.
Resta a pergunta: a curva da estrada ainda existe?
Aqueles que quiserem manter a curva terão que responder às seguintes perguntas: para que a curva? A quem interessa a sua permanência? Para que investir na conservação dessa curva?
Enquanto o leitor procura decifrar o enigma da estrada vamos discutir a validade do adágio popular. Se a regra é que “toda regra tenha exceção” então qual a exceção dessa regra?
A sociedade moderna sofre transformações em ritmo acelerado. As necessidades humanas mudam e as relações se alteram em decorrência dessa mudança. As regras, portanto, são mutáveis. Devem ser questionadas e atualizadas periodicamente. Todas as regras? Não.
Algumas regras são universais e devem ser eternas. Podem não estar sendo respeitadas em alguns lugares ou por algumas pessoas, no entanto, mais cedo ou mais tarde elas “emplacarão” e os transgressores pagarão pelo erro de não respeitá-las. Mesmo que o pagamento seja póstumo, mas a sociedade um dia os terá por bárbaros, indignos de terem vivido.
O respeito pelo outro, a defesa da vida, a promoção do bem-estar de todos, a dignidade humana acima de todos os interesses, eis os preceitos de uma regra universal e eterna. Essa regra não tem exceção.
Campo Grande, 06 de agosto de 2011.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Liberdade – II


Nós que vivemos em um país democrático temos direito à liberdade desde o nascimento. Este é o status legal de todo cidadão brasileiro. Porém entre ter direito à liberdade e ser livre há um certo percurso a fazer.
Liberdade é como uma herança, a pessoa nasce tendo o direito a ela, mas pode passar a vida sem usufruí-la. Ela pode constar na constituição de um país, mas o povo não ser livre.
Em alguns regimes a liberdade só existe para os homens em outros, somente para os governantes. Há ainda casos de pessoas que vivem em um país democrático e muitos lutam para que tenham a liberdade, mas elas não conseguem por uma questão muito pessoal. Vejamos alguns exemplos:
Uma pessoa que viaja para um país também democrático, mas cuja língua desconhece completamente terá algumas dificuldades para usufruir da sua liberdade. Se for abastada poderá recorrer aos serviços de um intérprete, mas se não for, por certo, pagará o preço da ousadia com a redução da sua liberdade.
Alguém que se sente plenamente devedor aos outros pelo simples fato de existir, não tem liberdade.
Conheço pessoas que economicamente possuem todas as condições para viajar, mas não o fazem por terem fobia a avião, por exemplo. Há quem possui Carteira Nacional de Habilitação, possui moto ou carro, mas fica dependendo de carona para se locomover. Há pessoas que tem condições financeiras e pertencem a uma família com bom status social, mas se recusam em participar de atividades festivas, comemorativas, etc. com os amigos porque têm fobia social. As pessoas com fobia social não são livres para amar, para servir, para se relacionarem com os outros, para sair de casa e para viajar. Porque as pessoas têm fobia social?
Certamente essa é uma pergunta complexa que requer a intervenção de um especialista em saúde mental, que não é o meu caso. No entanto, mesmo sendo da área de educação atrevo-me a fazer algumas conjeturas sem a pretensão de esgotar o assunto e sem garantir que essas conjeturas levem a um lugar seguro. Elas estão aqui apenas para contribuir para a compreensão do nosso tema que é a liberdade.
Uma criança que sofre bulling na escola, na rua ou entre amigos, ou ainda que é humilhada pelos pais, tem potencial para desenvolver essa fobia. Um profissional com pouco sucesso na profissão ou que exerça a profissão por falta de uma melhor opção pode também apresentar os sintomas de fobia social.
Pensemos em um membro de uma instituição religiosa fundamentalista onde os discursos pessoais e públicos (sermões) são centrados no preconceito para com os que não pertencem ao grupo, que focalizam frequentemente os castigos divinos como uma ameaça constante aos que não cumprem (e ninguém cumpre) corretamente as normas e que insistem nos “perigos” inevitáveis de um relacionamento com pessoas que não são da mesma fé. Essa pessoa precisa ser muito forte para ter outra reação que não seja a fobia social.
Ainda no contexto das instituições religiosas podemos dizer que nos sermões que têm como foco a incapacidade absoluta do ser humano para agradar a Deus ainda que em questões secundárias e que responsabilizam os membros por aquilo que Deus não fez por Sua soberana vontade;  nos discursos que mostram um Deus sempre insatisfeito com o povo e exigindo cada vez mais, que os responsabilizam pelos fracassos alheios (dificuldades dos outros para aceitar a fé) como se os tivessem provocados e esquecendo a liberdade do outro; nos sermões que os colocam no centro das atenções da ira divina, dos ataques do inimigo, da fúria social contra os crentes e dos distúrbios da natureza; nos sermões que os fazem crer serem alvos de uma perseguição sempre iminente e que são incapazes de se livrarem dela sem burlar os desígnios da onipotência. Penso que uma religião como essa provoca a fobia social e predispõe o sujeito à perda de liberdade.
Quem não consegue entregar-se aos braços de quem lhe jura (ou demonstra, ou dá evidências de) amor não tem liberdade. Que não ousa sair da rotina com medo de não encontrar o “caminho” de volta, não tem liberdade. Esclareço que não falo em tomar caminhos que já provaram serem perigosos como os vícios, por exemplo.
Quem se recusa superar os preconceitos nunca será livre, que não corre riscos não sabe o que é ser livre. Quem tem dificuldade em conviver com as diferenças, não é livre.
Portanto, amigos, há o direito de ser livre, mas para usufruir esse direito requer uma “senha de acesso” que nem todos conseguem.
Como vimos uma família “fechada” ao diálogo, com pais autoritários e que tenham fobia social, não facilita o acesso dos filhos a essa “senha”. Uma escola centrada nos professores, ou nos conteúdos, ou no autoritarismo da equipe gestora é outro obstáculo a essa “senha”. Um cônjuge ciumento, controlador, chantageador e “fechado” ao diálogo, isto é, que tem soluções prontas e respostas pré-elaboradas é um obstáculo. Uma comunidade que não estimula práticas sociais e humanitárias também limita esse acesso à liberdade. Uma instituição religiosa fundamentalista, com um culto excessivamente formal é inimiga da liberdade.
E Deus, quer você livre ou escravo?
Você é livre?
Qual a “senha” de acesso à liberdade?
Domingo, 31 de julho de 201, 14:30 em Nova Andradina, MS.
Antonio Sales
profesales@hotmail.com

sábado, 30 de julho de 2011

O Amor


É difícil definir o amor, mas quero crer que todos tenham o conceito do que seja ele. Essa ideia de amor como sendo o gostar desinteressadamente de alguém ou da divindade parece ser de domínio público.
Penso que haja dois níveis de amor: o amor-sentimento e o amor-em-ação. Um é contemplativo, reflexivo e resulta do respeito que se tem pelo outro. O outro (amor-em-ação) resulta da preocupação com o bem-estar do objeto amado e da seriedade com que conduzimos as nossas relações sociais.
O amor–sentimento assim com a oração, não é panacéia. Ele não cura infecções, não cicatriza feridas, não evita a violência e não acalma o irritado. O amor-em-ação pode fazer tudo isso porque ele não se limita a palavras ou expressões faciais de afeto, ele produz ação. Ele mobiliza a busca pela solução do problema. O amor-em-ação é o amor-sentimento acrescido de responsabilidade social.
Entendemos que amar é uma arte que pode ser aprendida. Para desenvolver essa capacidade alguns requisitos pessoais precisam ser preenchidos. Dentre eles destacamos:
1.Gostar de si mesmo. Isso significa ter superado fracassos. Ter aprendido a perdoar-se pelos erros não-intencionais cometidos. Ter entendido que nem todo mal que lhe aconteceu foi por culpa sua e que, em algumas circunstâncias, os seus próprios erros foram provocados por outros. Enfim, é preciso ter autoestima.
Quando Jesus disse “amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22: 39) estava dizendo que não ama o próximo quem não se ama.
2. Não esperar do outro mais do que um ser humano pode oferecer. Como por exemplo: preencher o nosso vazio existencial, estar a postos em todo momentos, não cometer erros, sorrir sempre, não ter oscilações de humor, entre outros.
Todo ser humano tem seus limites. Limites físicos, emocionais e afetivos, financeiros, intelectuais, etc. Aceitar as limitações humanas (não a má vontade, os vícios, o mau caráter) é condição necessária para desenvolver a arte de amar.
3. Aceitar as diferenças. Redundantemente podemos dizer que há diferença entre admitir as diferenças e aceitar as diferenças.
Admitir as diferenças é um assentimento intelectual, é saber que os outros são diferentes de mim. Aceitar as diferenças é permitir que o outro goste de coisas diferentes das que eu gosto. É tratar com o mesmo respeito (e depois amar com a mesma intensidade) o mais calmo e o mais agitado. É não exigir que o outro tenha as mesmas perspectivas que eu.
4. Respeito. Este item engloba os outros dois que o precedem, porém, ele é mais amplo e vai além de aceitar as diferenças. É fazer valer os direitos do outro. Não apenas aceitar as diferenças, mas admitir que ele tem o direito de ser e defender o seu direito de mantê-las. Vai ainda mais além. Implica em respeitar as regras sociais que proporcionam bem-estar ao outro. Há normas sociais que estabelecem direitos individuais, são direitos objetivos, tais como: liberdade de falar, de ir e vir, de ter o seu salário ou mesada, a sua religião própria e assim por diante. Há diretos subjetivos, que não estão expressos em lei, mas que devem ser respeitados também. Por exemplo: errar enquanto busca a solução de um problema, pensar antes de responder a uma inquirição, guardar segredo, romper com o seu passado, omitir informações que o fragilizem, dormir tranquilo após um dia de trabalho, projetar o seu próprio futuro, gostar de coisas que eu não gosto e ser respeitado em suas diferenças.
Talvez caiba aqui um parênteses para explicar ao leitor que em nenhum momento pensamos em defender o direito de ofender, ser descortês, ser voluntariamente pesado aos outros, ser hipócrita, etc..
Pensamos que tendo cumprido esses quatro requisitos básicos estamos em condições de aprender a arte de amar.
O amor não exige retorno, não exige afeição do objeto amado, não exige ser correspondido. O amor é incondicional. Quando se faz algo por amor a alguém não se espera nem mesmo o reconhecimento.
Diferentemente do amor, a amizade espera retorno. Ela se desenvolve em um ambiente de afinidades, de proximidades de interesses, de confiança mútua, de diálogo, de uma relação franca, transparente. Um amigo espera ser correspondido pelo outro, ser respeitado pelo outro, cativar e ser cativado pelo outro. Por essa razão a amizade “prende” e o amor liberta.   O amigo deseja o outro para si e a pessoa que ama permite que o outro seja o outro.
Quem ama sente-se atraído pelo outro, mas não espera ou exige que o outro seja atraído por ele. Por essa razão um poeta disse que a amizade é “quase amor”.
Chego a pensar que um casamento teria mais chances de ser feliz se os cônjuges primeiro se respeitassem e depois se tornassem amigos. O amor não é necessário para a felicidade no casamento, o respeito sim. A amizade amplia essa possibilidade e o amor seria a culminância, o resultado, a apoteose.
Para transformar o amor-sentimento, contemplativo, despretensioso em amor-em-ação é preciso energia física, determinação e compromisso social.
Tenho ouvido muitos dizerem que Deus é a fonte do amor. Não ouso discordar por entender que Deus é a fonte de tudo. Por outro lado, acho um pouco cômoda essa abordagem. Entendo que se Ele é a fonte, no sentido de que sem Ele não posso amar, isso me desobriga de aprender a arte. Ela me informa que tudo o que tenho de fazer é esperar que a “água” dessa fonte me bafeje ou me inunde.
Prefiro a abordagem de que Deus é o modelo de amor. É aquele que sai da comodidade para a ação. Ele não espera resposta e não exige que correspondamos ao Seu apelo. Ele age e respeita, oferece e não pede em troca para o Seu próprio benefício. Quando exige resposta é para o bem da comunidade de crentes e não Dele próprio.
É difícil amar, é coisa para gente “grande”, isto é, gente que supera, que resiste a indiferença, que não desiste do outro, que aposta no outro, que confia, que venceu a mesquinhez, que soube primeiro ser amigo e respeitar a si mesmo e aos outros.
Sábado 30 de julho de 2011    16:10
Nova Andradina, MS  
Antonio Sales
profesales@hotmail.com

A Oração –II



 Não sendo favoráveis aos procedimentos extremos enfatizamos que embora a oração não seja uma panacéia, isto é, não cura e nem evita todos os males, ela continua importante e deve ser praticada. Precisamos de uma ligação com o transcendente, com o Deus que fomos ensinados a crer.
O problema são os extremos de substituirmos a ação pela oração ou a oração pela ação. Supomos que não sejam muitas as pessoas que oscilam nessa “gangorra” de extremos, mas acreditamos que haja umas poucas que têm dificuldades em pautar-se pelo equilíbrio. Normalmente os acomodados e os inseguros substituem a ação pela oração.
Nesta oportunidade quero partilhar com o leitor mais um resultado da leitura de Yancey (2010). Ele descreve os três estágios da oração.
O primeiro estágio é um grito de socorro. É instintivo, espontâneo e ocorre em momentos prementes da vida. É o clamor da mãe que vê o filho apresentar uma febre que recusa ceder diante dos analgésicos. Recorre também a ela o desempregado depois de várias tentativas frustradas de conseguir outro emprego.
É uma oração simples e produto do desamparo humano. É a expressão da ansiedade.
Essa oração traz alivio para a tensão do momento porque através dela lançamos sobre Deus toda nossa ansiedade. Ela abre as portas para intervenção divina, para os milagres, para a solução de um problema impossível para os homens.
É um gesto de insatisfação com o que presencia e um desafio à divindade para que intervenha nesse momento em que as “forças” humanas não deram conta de resolver o problema. É também uma disposição para aceitar ajuda de Deus, de amigos, de profissionais, enfim, de que puder socorrer.
Sabemos que Deus muitas vezes opera por meio de seres humanos preparados e dotados de disposição para ajudar.
O segundo estágio é a meditação e a reflexão. É um momento de aprendizado e de preparo para a ação. Ajuda avaliar os fundamentos da nossa vida. É a busca pela reordenação dos valores e pela compreensão de onde está depositada a nossa confiança. É o processo de rever conceitos. Como nada disso se faz sem comparações, este segundo estágio inclui estudo, disposição para aprender com as leituras que fizer e humildade para aceitar as mudanças que a leitura “sugerir”.
Uma leitura, e consequente reflexão, somente são proveitosas se apontar caminhos de mudança em nosso comportamento. Meditar no que leu e orar sobre isso é dispor-se e preparar-se para agir.  Essa leitura não deve ser única ou unidirecional porque esse tipo de leitura não permite comparação.
Muitos crentes leem apenas a Bíblia o que não se pode considerar um erro, mas com certeza é uma leitura pobre para fins de comparação. Outros leem, além da Bíblia, somente autores de uma acerta orientação religiosa. São leituras unidirecionais que acabam produzindo um estreitamento da visão, um empobrecimento do intelecto.
Conhecemos profissionais que têm certa solidez na ciência ou arte que estudaram e praticam, mas são pobres intelectualmente por terem uma visão unidirecional da vida. Seus recursos intelectuais são limitados produzindo uma contribuição também limitada para os relacionamentos, para os debates, para a compreensão da realidade, para a transformação da sociedade e da própria vida. Quem não sabe o que dele é esperado não consegue mudar o comportamento para satisfazer as necessidades do outro e, até mesmo, as suas.
A leitura multivariada permite essa visão ampla e, por essa razão, supomos que seja muito mais saudável.
Nesse segundo estágio da oração joelho (ou ajoelhar-se) rima com olhar para o outro e suas necessidades, reflexão é sinônimo leituras diversas e meditação é preparo para a ação.
Reflete-se sobre a profundidade dos problemas e o empenho necessário para resolvê-los. Reflete-se sobre os reflexos do nosso comportamento sobre os outros e sobre sua possível relação com as dificuldades que enfrentamos. Reflete-se sobre as múltiplas saídas para um problema, saídas propostas por quem já os enfrentou e venceu.
Disse Yancey: “a religião deve necessariamente produzir iniciativa e frugalidade, e essas duas atitudes só podem produzir riquezas”.
O terceiro estágio ocorre quando desviamos os nossos olhos dos nossos problemas e olhamos para fora, para as necessidades dos outros. Essa é a oração-ação.
Sobre a frase do Pai Nosso “Seja feita a Tua vontade aqui na terra como no céu” Yancey comenta que no céu não há lugar para desabrigados, para crianças desamparadas, para vítimas de enchentes, para drogados, para famílias em desacertos, para jovens desorientados. Com isso o autor quer dizer que o terceiro estágio da oração é uma ação em favor dessas pessoas. É sair do discurso puramente religioso, espiritualizado, centrado apenas no nosso relacionamento com Deus e ir para “os campos da seara”(Jo 4:35,36). É levar  socorro aos desabrigados, amparar as vítimas de violência, orientar os jovens, orientar as famílias e criar clínicas de recuperação.
Tenho um amigo que conquistou o meu respeito pela sua preocupação com os jovens. Ele anseia preparar os jovens para o mercado de trabalho ensinando-os a preparar o seu currículo prático, isto é, elaborar o seu “Projeto de Vida”, investir em si mesmo. Ele faz isso há doze anos e muitos jovens já encontram o seu lugar no mercado de trabalho através do seu esforço. Ele é incansável e apesar do pouco apoio que recebe das famílias, de alguns líderes da sua igreja e até mesmo de alguns jovens que são imediatistas, não desiste.
O Mota é um idealista incansável, um humanista exemplar e um religioso prático. A sua oração do Pai Nosso é: “o pão (trabalho para o jovem) nosso de cada dia nos dá hoje”. Meu amigo desafia a lógica e o senso comum, sacrifica a comodidade, ignora os desafetos, supera o cansaço e as frustrações tão comuns e continua na luta em favor dos jovens da sua comunidade.
Ele pratica o terceiro estágio da oração.
YANCEY, Philip. Para que serve Deus: em busca da verdadeira fé. São Paulo: Mundo Cristão, 2010.
Nova Andradina, MS, 30/07/2011  8:20             profesales@hotmail.com

sábado, 23 de julho de 2011

A Oração



Muitas são as definições de oração e muito se pode discutir sobre o significado dela. Neste texto oração tem o significado de conversa com Deus, desabafo da alma perante o Eterno, palavras de agradecimento a Deus ou solicitação de ajuda. Pode ser cantada, falada, ou apenas sussurrada. Pode ser em público ou em particular e pode ser espontânea ou memorizada. Enfim, oração neste texto é comunicação do ser humano com o Eterno.
As religiões incentivam a sua prática como forma de aumentar a comunhão, servir de intercessão, aumentar a confiança em Deus, superar problemas de caráter, diminuir a insegurança ou angústia, enfrentamento da tentação, busca de sabedoria ou orientação para decisões importantes, e assim por diante.
Acreditamos que a oração é realmente importante e tem muito a contribuir para o bem-estar emocional e espiritual do ser humano. Defendemos que a sua prática deve ser incentivada, mas pensamos que muito do que se diz sobre o efeito e poder da oração não passa de mitos e, talvez, de hipocrisia ou desculpa por parte de quem divulga.  
Da nossa parte acreditamos que a oração não é panacéia contra todos os males como supõem alguns religiosos. Estamos certos de que a oração não é remédio contra a violência porque o violento não permite que Deus atue na vida dele, logo, o meu pedido não surtirá efeito porque Deus não intervém contra a vontade humana. A oração não é um poder mágico que flui diretamente do devoto em oração para o objeto da mesma.
A oração não cura apendicite (e outras tantas doenças que exigem cirurgia) e a prova disso é que ninguém espera em oração pela cura. Antes, pelo contrário, procura imediatamente um cirurgião.
A oração não proporciona diplomas e não profissionaliza ninguém. Essa é uma tarefa das escolas técnicas e universidades. A oração não transforma o caráter porque este é resultado de uma decisão individual, de mudança de hábitos e do cultivo de um comportamento socialmente aceito.
A oração não cura fraturas expostas.  A oração, em caso de acidente, não protege um e deixa o outro à míngua porque se fizesse isso revelaria um Deus parcial e diferente daquele que Jesus disse que “faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5:46 ).
A oração não nos isenta de responsabilidades. Ela não nos desobriga de tomar decisões.
Em algumas igrejas a liderança procura resolver as questões administrativas e relacionais através de oração. Dos casos que conhecemos nenhum foi resolvido e a igreja entrou em decadência. Essa atitude de tentar resolver os problemas através de oração trouxe à tona um pastor inseguro, de caráter fraco, indeciso e, tecnicamente incompetente.
A oração não é um recurso de preparo de sermão por quem não estuda. Muitos pregadores procuram nos convencer de que o sermão a ser apresentado por ele representa a voz de Deus fazendo uma oração antes de iniciar o seu pronunciamento. Em todos os casos que presenciamos essa foi apenas uma forma de acobertar a incompetência ou falta de preparo, porque o sermão apresentado, com certeza, deixou Deus envergonhado pela sua pobreza de conteúdo e até incoerência no pronunciamento. Em muitos casos, tem-se a vontade de perguntar ao pregador porque ele não orou pedindo ajuda a um Deus mais inteligente se é que o sermão foi orientado por Ele através da oração.
A oração não deve ser o único recurso para resolver problemas familiares. Educação de filhos exige planejamento e ação. A manutenção da família exige trabalho e laboriosidade, além  da oração. A “harmonia” entre os cônjuges é resultado de esforço, compreensão, tolerância, desprendimento, maturidade emocional e intelectual, conhecimento das necessidades do outro e disposição para colaborar. A oração é a menor parcela.
A aprovação em concurso exige muito estudo e a oração é apenas um fator coadjuvante para diminuir a tensão no momento da prova.
Em caso de viagem é mais seguro levar o carro em um mecânico para uma revisão do que confiar na oração e sair de casa com o motor prestes a fundir ou com os pneus em etapa final de desgaste.
Em caso de sua casa ser assaltada, e você ser feito refém, é preferível que os vizinhos chamem a polícia ao invés de se reunirem para orar. Em caso de um familiar drogado é mais produtivo buscar ajuda em grupos de apoio e clínicas de recuperação do que ficar recluso em casa orando.
Em todos os casos citados a oração tem o seu lugar e pode contribuir para que alguns problemas se tornem mais fáceis de serem resolvidos, porém ela não deve ocupar o lugar da ação.
Dessa forma concluímos que o que exige ação não pode ser motivo apenas de oração. 
Antonio Sales
profesales@hotmail.com
Produzido em 23/07/2011

A Contribuição da Religião para o Indivíduo

Antonio Sales
profesales@hotmail.com
Neste texto o termo religião tem significado de instituição religiosa ou igreja. De modo mais específico estaremos nos referindo a uma religião, a que mais conhecemos, embora não a identificaremos.
Talvez seja desnecessário enfatizar que, de forma geral, as igrejas evangélicas têm mais sucesso no trabalho com pessoas de classe social mais humilde. Essas são mais acessíveis às investidas de quem promove campanhas de evangelização, estão à espera de atenção e mais sujeitas a serem atraídas para “iscas”.  Diante dessa constatação teceremos nossas considerações pressupondo que este seja um fator percebido pelos nossos leitores.
As pessoas dessa classe social normalmente têm dificuldades para se inserirem em um contexto social diferente daquele a que estão acostumadas. É ai então que a religião presta o serviço humanitário, isto é, tem a sua oportunidade de contribuir para a socialização dessas pessoas.
Primeiramente a pessoa é saudada com entusiasmo quando vem à igreja e recebe toda a atenção que precisa. Ao ser batizada é encarregada da recepção, fazer oração em público ou assume a liderança de algum departamento. Mais tarde é eleita líder local da igreja ou encarregada do diaconato ou ainda é escolhida para coordenar algum departamento que envolve várias pessoas. Tudo isso representa crescimento, implica em desenvoltura e destaque social. Alguns se tornam pregadores, secretários, instrutores bíblicos, coordenadores de jovens e assim por diante. Nesse contato memorizam uma centena de textos bíblicos, aprendem uma meia centena de palavras ou frases novas e especializadas e decoram uma meia dúzia de estórias ou ilustrações. Esta é a grande contribuição da religião evangélica para as pessoas: leva-as a romperem a inércia inicial.
Esse processo é muito importante. Para muitas pessoas essa inserção representa a oportunidade de ascensão social em virtude da desenvoltura adquirida nesse processo de afiliação a uma igreja evangélica.
O problema é que, normalmente, a inserção social do sujeito para nesse estágio inicial. A secretária não recebe nenhuma instrução sobre como elaborar uma ata, a recepcionista não é assessorada com alguma teoria sobre a arte de recepcionar, o líder não é instruído sobre a arte de liderar, os cantores dificilmente recebem treinamentos incluindo técnica vocal ou de regência, os pregadores aprendem a “técnica” de pregar apenas vendo os outros pregadores. Raramente há cursos sobre como preparar um sermão, sobre ética na pregação, informações técnicas sobre a postura física, orientação sobre a linguagem ou esclarecimento sobre a finalidade de um sermão.
Os membros não são estimulados a novas leituras, sendo inclusive coibida a consulta a fontes externas. Não são estimulados a produzir ou ter iniciativas próprias. Passam a receber sermões prontos e não recebem estímulo à reflexão sobre a sua prática ou sobre a administração da igreja. Não podem criticar sermões e são convencidos de que, quando pregam, falam em nome de Deus, portanto, estão isentos de erros e não podem ser corrigidos.
Diante dessa ausência de acompanhamento, da falta de estímulo à criticidade, o sujeito estabelece-se como já tendo aprendido tudo e para de crescer intelectualmente. Alguns se tornam arrogantes como se fossem donos da verdade e prosseguem na vida religiosa sem fazer outro progresso além daqueles passos iniciais. Aliena-se, fechando-se em seu pequeno mundo religioso e se limita a um linguajar programado e a uma visão direcionada.
Com essas limitações os sermões tornam-se repetitivos, rasos e acusatórios. Não trazem informações novas, não produzem reflexões, não estimulam o crescimento intelectual e nem o crescimento cristão.  As ilustrações são sempre as mesmas e, muitas vezes, são contadas como se fossem fatos históricos deixando evidente que o pregador não sabe distinguir estórias de história. Os textos bíblicos usados nos estudos são sempre os mesmos, as ilustrações se repetem e as aplicações raramente sofrem variações.
Ao pregar sobre o valor da oração fazem uma caricatura de Deus. Apresentam-nO ora como um Deus de plantão e ora como um Deus caprichoso (inescrupuloso). Quando ocorre um acidente, por exemplo, e uma pessoa escapa ilesa e a outra sofre as consequências então é porque a mãe da ilesa estava orando e a da outra, não. É como se Deus não cuidasse de quem não ora ou ainda programasse acidentes para ensinar lições aos que não se dobram diante Dele em clamor e humilhação.
Quando fazem uma abordagem da atualidade fazem-no sob o viés do preconceito. Os “de fora” são todos de mau caráter e exercem influências sempre negativas sobre os jovens da igreja. Dessa forma os jovens tornam-se arredios e descorteses para com os visitantes à igreja. O “mundo” não oferece nada de bom (nem mesmo tecnologia?) e não contribui para a felicidade. São, portanto, discursos alienantes.
Alguns “pecados” condenados nesses sermões são imprecisos como, por exemplo, a moda, o mundo e as práticas mundanas. Esses conceitos nunca são definidos. Não dizem o que há de mal ou imoral na moda, não definem o que é mundo (ver artigos analisando o mundo neste blog) e não explicitam o que é uma prática mundana. Não explicitam porque o exercício de uma profissão, por exemplo, que é uma prática do mundo, não é condenável. De igual modo, não dizem se o fato de os homens usarem, ou não, bigode é moda condenável. O preconceito contra as mulheres não possibilita que as questões tipicamente masculinas sejam incluídas no debate.
Esse segundo estágio é o ponto frágil da religião. É ele que torna os seus membros hipócritas porque na presença do pastor são ovelhas e na ausência, lobos devorando-se uns aos outros. Usam a internet ostensivamente e condenam a internet publicamente, em um gesto de grotesca hipocrisia. São incoerentes, porque no seu discurso a igreja, isto é, todos os seus membros e a administração são adeptos do mundanismo, menos quem fala (ver artigos sobre os Guias Cegos). Da mesma forma se comportam  os ouvintes porque cada um aplica o discurso aos outros e nunca a si mesmos, pois se o fizessem não concordariam quando algum pregador afirma que a igreja está cheia de hipócritas.
Tornam-se ainda apáticos, sem iniciativas próprias (só fazem o que está no programa da igreja) ou arrogantes (consideram-se donos absolutos da verdade e que falam em nome de Deus). Essa condição (incluindo tudo o que foi descrito anteriormente) leva-os de volta a antigas práticas tais como fazer intrigas, estimular a formação de grupos paralelos, preocupação com exterioridades (roupas, aparência), debates sobre questões secundárias que não ampliam a visão e não melhoram os relacionamentos humanos.
Embora essa seja uma condição nada recomendável é pouco provável que tal situação sofra mudanças. As pessoas não questionam, logo não incomodam a liderança. Elas brigam entre si, mas silenciam na presença dos pastores. Mostram-se submissas (por temor) na presença do pastor, embora insatisfeitas com a atenção que recebem. Como não leem outros autores não têm parâmetros de comparação e ficam incapacitados para julgar um sermão ou emitir uma opinião consistente sobre a administração que tanto discordam. Apesar dessas fragilidades eles devolvem os dízimos e contribuem com as ofertas que garantem a manutenção das despesas administrativas e salariais. Nesse caso, para que mudar? Quem se interessará em produzir mudanças? Que pastor ou administrador da igreja fará isso? Quem poria em risco a sobrevivência se está materialmente confortável?
Parece que um filósofo muito detestado pelos cristãos, e por isso o seu nome é omitido aqui, tinha razão quando afirmou que as religiões cristãs têm preferência por ovelhas (seres que seguem de cabeça baixa), e não por homens (seres que pensam e decidem). Seus líderes  sempre querem ser seguidos, nunca questionados.
Produzido em 23/07/2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

Conhecimento e Certeza


Antonio Sales
profesales@hotmail.com
Quando escrevi sobre o “medo da liberdade” usei a metáfora do pássaro livre e do pássaro engaiolado. A  certa altura do texto afirmei que um tem garantias mas não tem conhecimento e o outro tem conhecimento mas não tem garantias.
Imagino que algum leitor tenha se perguntado: não é possível ter os dois? Será que conhecimento nunca rima com certeza?
Talvez sim. Tudo depende do universo de cada um. Depende do que se entende por certeza e por conhecimento. Depende da certeza que você tem e do conhecimento que pretende ter.
 Se considerarmos que ser alfabetizado é ter conhecimento então a resposta à pergunta anterior é “sim”, pois uma criança alfabetizada com certeza conhece todas as letras do alfabeto.
Uma criança que terminou as séries iniciais com boas notas com certeza sabe as quatro operações fundamentais da aritmética. Naquele universo limitado é possível saber tudo e ter certeza de tudo.
Deixemos, porém, as coisas de criança e pensemos nas coisas de adulto.  Pensemos nesse universo infinito em que sábios são aqueles que sabem que ainda há muito a aprender. Sábios adultos têm certeza de uma coisa: apenas tocaram na orla do conhecimento. Portanto, vivem na incerteza do que lhe falta conhecer; desconhecem o que lhes aguarda em cada “esquina “ da vida. Um advogado sábio tem certeza que pode perder a causa do seu cliente, pois o outro pode ter um advogado mais sábio do que ele. Um professor sábio só tem uma certeza: pode ser surpreendido pela resposta de um aluno. Um médico experiente sabe que não pode dar garantias do seu trabalho. Um remédio que curou 99 pessoas pode ser fatal para a centésima.
O conhecimento fornece certezas que não gostaríamos de ter e nos rouba as certezas que almejamos.
No relato do Gênesis sobre Éden tudo isso fica muito claro. Deus retirou o primeiro casal do jardim, isto é, retirou a proteção tão logo se apropriaram do conhecimento. O direito ao convívio tranquilo com os animais, a garantia de alimento, de ausência de dor e de ausência do cansaço evaporou-se no momento em que tiveram “conhecimento do bem  e do mal”. No momento em que perceberam que algo poderia não ser daquele jeito fugiu-lhes a tranquilidade, perderam a garantia do pão e a certeza da paz.
Houve a promessa divina de restauração. Um promessa que embora seja uma certeza  do ponto de vista divino ( isto é, Deus dá garantias), é uma  incerteza do ponto de vista humano porque tudo está sob condições. Em outras palavras: é certo que Deus cumprirá a Sua promessa, mas não é certo que o homem se beneficie dela. Os fariseus não se beneficiaram com o cumprimento da promessa divina de enviar o Seu Filho ao Mundo.
Dessa forma concluímos que conhecimento não rima com certeza. O conhecimento que não traz incertezas é um conhecimento infantil, limitado a um universo do tamanho de uma gaiola.
Algumas certezas são possíveis em qualquer  nível de conhecimento mas não são convenientes em nenhum deles. A certeza de que poderemos ser surpreendidos por uma má noticia amanhã, ou que podemos estar equivocados em nossas  afirmações, é diretamente proporcional ao conhecimento de um sábio  e inversamente proporcional ao que se julga conveniente ter como certo.
Como felicidade não depende de certezas e nem de conhecimento é possível ser feliz em qualquer caso. Portanto, felicidade  e contentamento não são critérios para avaliar grau de certeza ou de conhecimento.
19/07/2011